Calor pode inviabilizar cultivo de alface em campo aberto no Brasil

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Lavoura de alface da cultivar BRS Mediterrânea em São José do Rio Pardo (SP) Foto: Rodrigo Baldassim

Plantar alface ao ar livre no Brasil pode se tornar cada vez mais difícil nas próximas décadas. Isso é o que revelam mapas de risco climático elaborados por pesquisadores da Embrapa Hortaliças (DF), com base em projeções do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e em modelos utilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Os dados indicam que, até o fim do século, praticamente todo o território brasileiro enfrentará risco alto ou muito alto para a produção da folhosa mais consumida pelos brasileiros.

A pesquisa considerou dois cenários climáticos: um otimista, com controle parcial das emissões de gases de efeito estufa, e outro pessimista, em que as emissões continuam crescendo até 2100. Em ambos, as perspectivas não são animadoras para o cultivo tradicional da hortaliça. O verão é a estação mais crítica, com temperaturas que podem ultrapassar os 40°C em boa parte do País — patamar bem acima do ideal para o desenvolvimento da alface, que exige clima ameno e umidade equilibrada.

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“Compreender como as mudanças climáticas podem afetar a produção de alface, em um país tropical como o Brasil, é essencial para desenhar estratégias de adaptação. Isso permite antecipar impactos e evitar prejuízos”, explica o engenheiro-ambiental Carlos Eduardo Pacheco, pesquisador em Mudanças Climáticas Globais da Embrapa.

Diante disso, as duas principais frentes de atuação da pesquisa têm sido o desenvolvimento de cultivares de alface com maior tolerância ao calor e de sistemas de produção para garantir a sustentabilidade do cultivo diante de condições climáticas adversas. Entre os exemplos estão os sistemas regenerativos, que restauram a fertilidade do solo e a biodiversidade – como o sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH) e o cultivo orgânico com compostagem e uso de bioinsumos; e os sistemas adaptados ao clima, que utilizam tecnologias e estratégias para evitar perdas por estresses climáticos – como o cultivo em ambientes protegidos ou controlados e o zoneamento agroclimático.

Projeções até 2100: cenário de alerta

Os mapas de risco climático foram construídos a partir da base de dados ‘Projeções Climáticas’, do Inpe, com resolução espacial de 20 km². O modelo dinâmico ETA, já validado para o Brasil e América Latina, foi utilizado para projetar o comportamento da temperatura (mínima, média e máxima) em diferentes estações do ano, ao longo de quatro intervalos de tempo: até 2040, de 2041 a 2070, de 2071 a 2100, e o período histórico de 1961 a 1990, como referência.

Para simular cenários futuros, os pesquisadores utilizaram os Caminhos de Concentração Representativos (RCPs, na sigla em inglês), criados pelo IPCC. O cenário otimista adotado foi o RCP 4.5, com aumento de temperatura global entre 2°C e 3°C até 2100. Já o cenário pessimista foi o RCP 8.5, com elevação de até 4,3°C e emissões de gases de efeito estufa em crescimento contínuo.

Os dados mais alarmantes aparecem nas projeções para o verão entre 2071 e 2100. No melhor cenário (RCP 4.5), 79,6% do território nacional apresenta risco climático alto para a alface em campo aberto, e 17,4% apresenta risco muito alto. Já no pior cenário (RCP 8.5), 87,7% do território entra na categoria de risco muito alto, e apenas 11,8% permanece com risco alto.

“Os mapas evidenciam a urgência de pensarmos em sistemas produtivos adaptados ao clima, especialmente para hortaliças, que são mais sensíveis do que as grandes culturas como milho ou soja”, destaca Pacheco.

Os cenários futuros para o clima

“Nós utilizamos um cenário otimista e outro pessimista para verificar qual seria o nível de comprometimento das regiões produtoras de alface em função do aumento da temperatura ao longo do tempo”, explica Pacheco. O cenário otimista utilizado é o RCP 4.5 (mapa abaixo), que considera um aumento da temperatura global entre 2°C e 3°C e emissões estáveis de gases de efeito estufa até 2100. Para fins de comparação, também foram gerados mapas a partir dos dados do pior cenário projetado para as mudanças do clima – o RCP 8.5. Nesse cenário pessimista, a previsão é que as emissões de GEE sigam em elevação e haja um aumento da temperatura em 4,3°C até o fim do século.

A avaliação dos pesquisadores também considerou quatro intervalos de tempo para acompanhar a evolução da inviabilidade de plantar alface em campo aberto no País com o passar das décadas. Os períodos mapeados vão do momento atual até o fim do século, sendo divididos em: dias atuais até 2040, de 2041 a 2070, e de 2071 a 2100. Todos esses intervalos foram comparados com o período histórico que, no modelo utilizado, corresponde à era pós-industrial, de 1961 a 1990.

Do melhor ao pior cenário

Considerando o fim deste século, a consulta aos mapas de temperatura máxima projetada mostra que no verão – a estação do ano mais desafiadora para o plantio da folhosa em campo aberto, em função do calor e das chuvas – o melhor cenário (RPC 4.5) indica que todas as regiões do Brasil apresentam risco climático alto, com exceção de uma área diminuta no Sul do País, com risco moderado indicado pela cor azul. No pior cenário projetado para o verão (RCP 8.5), o território brasileiro é todo tomado pela cor vermelha, como indicativo o risco climático muito alto, somente com a faixa litorânea pintada de amarelo para apontar o risco alto (mapa abaixo).

Os mapas gerados para a cultura da alface consideram as temperaturas (máxima, mínima e média) para cada cenário futuro, apontando em quais regiões o cultivo ficaria prejudicado e demandaria novas tecnologias para permanecer viável. “Os mapas tornam mais fácil a visualização do impacto da temperatura na cultura da alface e evidencia a urgência em se pensar não mais sobre mitigação, e sim sobre adaptação dos sistemas produtivos de hortaliças às mudanças do clima”, enfatiza Pacheco.

Ainda no intervalo de tempo de 2071 a 2100, para a estação do verão, o cenário RCP 4.5 mostra uma faixa de temperatura que vai de 23,4°C a 41,2°C. No cenário RCP 8.5, os valores vão de 25,4°C a 45°C. “Do ponto de vista evolutivo, a alface depende de temperatura amena e boa umidade para se desenvolver plenamente. Esses números projetados são preocupantes porque a adaptação da espécie às altas temperaturas é mínima, especialmente se considerar que as sementes de alface exigem temperaturas inferiores a 22°C para haver germinação”, explica o engenheiro-agrônomo Fábio Suinaga, pesquisador em Melhoramento Genético da Embrapa Hortaliças.

Ao antever os cenários futuros, as pesquisas da Embrapa priorizam materiais genéticos mais tolerantes ao calor. “Temos atualmente em nosso portfólio cultivares com diferentes mecanismos para resistir melhor ao calor, como a alface BRS Mediterrânea que, por ser mais precoce, fica menos dias no campo até obter um padrão comercial, ficando menos exposta às oscilações da temperatura”, esclarece Suinaga. Ele ainda destaca que o sistema radicular vigoroso da cultivar (foto à direita) contribui para o aproveitamento de água e nutrientes do solo, indicando também uma potencial tolerância ao estresse hídrico.

O produtor rural Rodrigo Baldassim, de São José do Rio Pardo, em São Paulo, atesta as vantagens da alface BRS Mediterrânea: “atualmente essa cultivar representa 80% do material de alface crespa que eu planto. Ela é meu carro-chefe por conta de aguentar melhor as altas temperaturas quando se compara com outros materiais comerciais”. Ele ainda enumera outras vantagens da cultivar, especialmente para quem comercializa pelo quilo: “essa alface entrega maior volume de folhas com padrão comercial, demora mais para pendoar e não tem queimadura de borda”.

Foto: Arquivo Embrapa

As próximas fases da pesquisa

Os próximos passos do mapeamento incluem o uso de uma base de dados com resolução espacial 20 vezes mais precisa – a WorldClim – e um conjunto de modelos usados no Sexto Relatório de Avaliação (AR6), o mais recente lançado pelo IPCC. Os novos mapas para a cultura da alface irão considerar como parâmetros os índices de precipitação e a necessidade hídrica da cultura em diferentes cenários futuros.

“A expectativa é expandir o mapeamento para outras espécies de hortaliças, como tomate, batata e cenoura, em função da importância socioeconômica e da sensibilidade desses cultivos ao clima”, adianta Pacheco, que também tem adotado o uso de inteligência artificial para automatizar o processo de geração dos mapas de risco climático a fim de obter maior escala e agilidade no desenvolvimento dos estudos.

(Com Paula Rodrigues/Embrapa Hortaliças)

 

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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