Animais reforçam segurança no campo, mas exigem manejo responsável

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Faep

O latido insistente de um cachorro ou o grasnado de um ganso pode ser o primeiro sinal de uma aproximação suspeita a uma propriedade rural. Antes mesmo de câmeras registrarem movimento ou alarmes serem acionados, esses animais costumam perceber alterações na rotina e alertar os produtores em relação à presença de pessoas desconhecidas ou até predadores.

Embora sejam utilizados por proprietários como uma primeira linha de alerta, cães, gansos, galinhas-d’angola e outras espécies não substituem as demais medidas de segurança. Esses animais devem complementar uma série de protocolos, como cercamento, iluminação, monitoramento por câmeras, controle de acesso, comunicação entre vizinhos e integração dos agricultores com as forças de segurança.

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Essa atuação integrada é incentivada pelo Sistema FAEP, que mantém parceria com a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (Sesp), Polícia Militar, Patrulha Rural Comunitária, Polícia Rodoviária Estadual e Corpo de Bombeiros para fortalecer a prevenção no meio rural.

“Segurança no campo não depende de uma única medida. Ela é construída com planejamento, troca de informações e ações preventivas. Por isso, disseminar práticas e estratégias ajuda a reduzir a vulnerabilidade nas propriedades. Nesse conjunto, os animais também podem cumprir uma função importante de alerta, desde que recebam os cuidados adequados e sejam utilizados de forma responsável”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Alerta antes das câmeras

Na prática, é assim que o produtor rural e presidente do Sindicato Rural de Ribeirão Claro, Marcos Minghini, organiza a segurança da propriedade. Além de câmeras, iluminação inteligente, cercas e contato direto com a Patrulha Rural Comunitária, Minghini utiliza cães e gansos como parte do sistema de proteção da fazenda.

“Por mais que você tenha sistemas de câmeras e alarmes, a sensibilidade de um animal antecipa qualquer atitude hostil. Considero os animais como o primeiro front de alarme para nos alertar, mas é fundamental utilizar também a tecnologia a nosso favor”, afirma.

O produtor Marcos Minghini, de Ribeirão Claro, mantém cães de diferentes portes próximos à residência. Os da raça pastor-maremano, protegem o rebanho, enquanto os border collies ficam atentos à movimentação

A percepção aguçada dos cães é justamente uma das características mais destacadas por especialistas em comportamento animal. Segundo o criador e especialista em seleção de cães de guarda Eduardo Luiz de Oliveira, da Cane Club Kennel, um bom animal reúne equilíbrio emocional, coragem, autoconfiança, inteligência e forte instinto territorial. “Mais importante do que o porte ou a fama da raça é a combinação entre genética, temperamento e manejo adequado. Um cão eficiente sabe identificar uma ameaça real e responder de forma proporcional”, diz.

Na propriedade, Minghini mantém cães de diferentes portes próximos à residência. Os da raça pastor-maremano, protegem o rebanho, enquanto os border collies, menores e ágeis, ficam atentos à movimentação. O produtor nunca registrou furtos ou roubos na propriedade e acredita que a presença dos animais contribua para afastar possíveis invasores. Ele também já testemunhou situações em que os cães afugentaram predadores, como uma onça-parda, e impediram a aproximação de outros animais. Em uma das ocorrências, a esposa do produtor foi protegida pelo pastor-maremano durante a aproximação de um cão desconhecido.

Bom cão se faz com manejo

Mais do que escolher uma raça conhecida, a eficiência de um cão de guarda depende dos cuidados recebidos desde os primeiros meses de vida. Segundo o 3º sargento Leandro André Soares, da Patrulha Rural Comunitária, que atua na região de Capanema, no Sudoeste do Paraná, um cão equilibrado protege melhor do que um animal estimulado a agir com agressividade.

“O bom cão de guarda depende de cinco pilares: saúde, alimentação, bem-estar, treinamento e controle. Socialização, vacinação, vermifugação, controle de pulgas e carrapatos e acompanhamento veterinário precisam fazer parte da rotina”, destaca.

Os animais também precisam ter água limpa sempre disponível, alimentação de qualidade, abrigo contra chuva, frio e calor, espaço para correr, contato diário com os tutores e exercícios físicos.

Segundo o policial, manter o animal permanentemente acorrentado, sem espaço ou interação, além de caracterizar manejo inadequado, pode provocar estresse, ansiedade e alterações comportamentais. A falta de socialização também aumenta o risco de ataques a visitantes, trabalhadores e pessoas que prestam serviços na propriedade.

“O melhor cão de guarda é equilibrado, obediente e sabe diferenciar uma situação normal de uma ameaça”, orienta Soares.

A avaliação é compartilhada pelo criador e especialista em comportamento canino Eduardo Luiz de Oliveira, que desmistifica a informação de que cães de guarda precisam ser grandes ou agressivos para proteger uma propriedade.

“O verdadeiro cão de guarda avalia o ambiente, identifica situações suspeitas e responde de forma proporcional. Um animal extremamente agressivo tende a ser imprevisível e a oferecer risco à própria família, funcionários e visitantes”, afirma Oliveira.

O criador e especialista em seleção de cães de guarda Eduardo Luiz de Oliveira, da Cane Club Kennel, afirma que um bom animal reúne equilíbrio emocional, coragem, autoconfiança, inteligência e forte instinto territorial

O treinamento também deve incluir comandos básicos, obediência, socialização e reconhecimento da rotina da propriedade. Nos casos de cães utilizados para proteger ovinos, caprinos ou aves, a aproximação com o rebanho deve começar ainda quando o animal é filhote, para que desenvolva vínculo.

Escolha do animal envolve diversos fatores

Para o produtor rural que pretende investir em um cão de guarda, a recomendação é não decidir apenas pela aparência, porte ou preço. De acordo com a orientação de Oliveira, o agricultor deve procurar criadores que realizem seleção genética responsável e priorizem saúde, estabilidade comportamental e aptidão para o trabalho.

O especialista também recomenda avaliar o espaço disponível na propriedade, o tempo que será dedicado ao animal e os custos fixos com alimentação, saúde e treinamento. Antes da escolha, é importante definir a função do cão, já que um animal destinado exclusivamente à proteção do patrimônio pode ter características diferentes daquele que também conviverá diariamente com a família.

“Ter um cão de guarda é uma responsabilidade de longo prazo. Bem conduzido, ele entrega proteção, companhia e equilíbrio; malconduzido, vira risco e frustração”, resume Oliveira.

Além dos cuidados com a saúde e o comportamento, cabe ao tutor manter controle sobre o cão. Cercas e porteiras devem impedir fugas, e o acesso de visitantes precisa ser acompanhado. Também é recomendada a instalação de placas informando a existência de cães de guarda.

Além dos cuidados com a saúde e o comportamento, cabe ao tutor manter controle sobre o cão

“O proprietário responde pelos atos praticados pelo animal e deve adotar medidas para evitar ataques a terceiros, circulação nas estradas e situações de maus-tratos. A castração também pode contribuir para impedir a reprodução descontrolada, reduzir o abandono e facilitar o manejo”, reforça o sargento Leandro André Soares, da Patrulha Rural Comunitária.

Cães sem raça definida também podem exercer função de alerta e proteção. A eficiência depende menos da raça e mais do temperamento, da saúde, da socialização, do treinamento e da relação construída com os moradores da propriedade.

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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