Invasão de búfalos ameaça ecossistema e força ICMBio a iniciar abate experimental

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

FOTO: © MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vai dar início a uma pesquisa piloto considerada decisiva para enfrentar um dos maiores passivos ambientais do oeste de Rondônia: a presença descontrolada de búfalos selvagens em unidades de conservação. O estudo prevê o abate de cerca de 500 animais — aproximadamente 10% do rebanho estimado — como forma de avaliar a eficácia e os impactos da medida.

A iniciativa ocorre em uma região sensível do Vale do Guaporé, onde atualmente vivem mais de 4 mil búfalos selvagens. O número pode chegar a 50 mil cabeças em apenas cinco anos caso nenhuma ação efetiva seja adotada, segundo alerta do Ministério Público Federal (MPF).

A reportagem foi produzida a partir de uma visita exclusiva da Rede Amazônica à área afetada, onde foi possível constatar de perto os danos provocados pelos animais invasores.

Espécie exótica e ameaça à biodiversidade

Os búfalos são nativos da Ásia e chegaram a Rondônia em 1953, trazidos pelo governo estadual para um projeto de exploração de carne e leite. A iniciativa não prosperou, os animais foram abandonados e passaram a se reproduzir livremente dentro de áreas protegidas.

Hoje, eles ocupam regiões entre a Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, a Reserva Extrativista (Resex) Pedras Negras e a Reserva de Fauna (Refau) Pau D’Óleo — uma área estratégica de encontro entre três biomas: Amazônia, Pantanal e Cerrado.

“É um ambiente único, com várias espécies endêmicas. A presença do búfalo pode levar à extinção de espécies que só existem aqui, sejam residentes ou migratórias”, explica o biólogo e analista ambiental do ICMBio, Wilhan Cândido.

Abate como única alternativa viável

Segundo o ICMBio, o abate é, no momento, a única alternativa tecnicamente viável. A região é de difícil acesso, o que inviabiliza a retirada dos animais, vivos ou mortos. Além disso, por nunca terem passado por controle sanitário, a carne dos búfalos não pode ser aproveitada.

“Ou a gente protege as espécies nativas ameaçadas de extinção ou vamos ficar apenas com a espécie exótica invasora”, afirma Wilhan.

A pesquisa envolve três frentes: o ICMBio, responsável pela gestão e logística; a Universidade Federal de Rondônia (Unir), que fará análises sanitárias; e uma empresa especializada, que se voluntariou para executar o abate.

O estudo busca responder questões fundamentais, como o impacto das carcaças deixadas no ambiente, a interação com a fauna nativa e possíveis riscos ambientais. Câmeras de monitoramento serão instaladas em parte das carcaças, e amostras de água vêm sendo coletadas desde o início de 2025 para avaliar mudanças na qualidade antes e depois da ação.

Danos ambientais já são visíveis

Sem predadores naturais, os búfalos causam impactos severos. Um dos animais mais afetados é o cervo-do-pantanal, espécie considerada vulnerável à extinção.

“Não temos um único registro de cervo convivendo com búfalos. Eles estão sendo empurrados e confinados em áreas específicas”, relata o analista do ICMBio.

Pesando mais de meia tonelada e com quase dois metros de altura, os búfalos destroem a vegetação, compactam o solo e abrem trilhas que acabam virando canais artificiais, desviando o curso natural da água. Esse processo compromete campos alagados, lagoas naturais e acelera a degradação ambiental.

Em alguns pontos, o solo afundou cerca de um metro, expondo raízes e levando à morte de árvores. Um dos símbolos dessa destruição é o chamado “cemitério de buritis”, áreas onde palmeiras típicas de ambientes úmidos morreram devido à compactação do solo e à drenagem provocada pelos animais.

Como consequência desse processo, em 2024 a região registrou, pela primeira vez, um incêndio intenso o suficiente para queimar até o solo.

“Estimávamos de 70 a 100 anos para recuperar a área. Mas, sem retirar o principal fator de impacto, que é o búfalo, talvez esse buritizal nunca volte”, alerta Wilhan.

Caça ilegal e pressão adicional

Outro problema associado à presença dos búfalos é o aumento da caça ilegal. Segundo o ICMBio, os animais funcionam como um “vetor” para a atividade criminosa.

“O caçador vem atrás do búfalo e acaba abatendo outras espécies nativas, como cervos, jacarés e tatus”, explica o analista ambiental.

Ação judicial e próximos passos

A pesquisa ocorre paralelamente a uma Ação Civil Pública movida pelo MPF, que cobra medidas urgentes do ICMBio e do Estado de Rondônia. Em decisão de novembro, a Justiça reconheceu a gravidade do problema, mas determinou que seja apresentado, em até três meses, um plano técnico de controle e erradicação da espécie invasora.

O plano deverá incluir metodologia científica, avaliação de riscos, cronograma, custos e destino dos animais e carcaças. O MPF também pede indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, valor que seria destinado a ações de reflorestamento.

Segundo o ICMBio, a pesquisa piloto não interfere no processo judicial e pode, inclusive, fornecer dados técnicos e científicos essenciais para embasar a estratégia definitiva que será apresentada à Justiça.

Para o setor agroambiental, o caso expõe um desafio complexo: conciliar conservação da biodiversidade, responsabilidade ambiental e decisões difíceis em áreas onde a omissão já cobrou um preço alto da natureza.

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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