Brasil enfrenta extinção de jumentos após perda de 94% da população

Nas últimos três décadas, o Brasil vive uma crise sem precedentes na preservação de sua população de jumentos. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) revelam que, desde 1995, o país perdeu impressionantes 94% de seus animais, passando de cerca de 1,37 milhão para aproximadamente 78 mil em 2025.
Essa redução alarmante coloca a espécie à beira da extinção, com apenas seis jumentos restantes para cada 100 existentes há 30 anos. O declínio é resultado, principalmente, da alta demanda por subprodutos derivados do animal, especialmente na indústria chinesa de ejiao — um suplemento feito a partir do colágeno extraído da pele dos jumentos, utilizado na Ásia para aumentar a vitalidade.
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Entre 2018 e 2024, foram abatidos cerca de 248 mil animais, concentrados principalmente na Bahia, que abriga os três frigoríficos autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para esse tipo de atividade.
Impacto ambiental e social
A redução drástica do rebanho não afeta apenas a biodiversidade, mas também as comunidades rurais que historicamente dependem do jumento para atividades agrícolas e transporte. Especialistas alertam que a extinção da espécie representaria uma perda irreparável para o semiárido brasileiro, onde o animal possui um perfil genético único, adaptado às condições locais.
Patricia Tatemoto, coordenadora da campanha da ONG britânica The Donkey Sanctuary no Brasil, destaca que a diminuição do uso dos jumentos no trabalho agrícola não justifica o abate em larga escala. “Há alternativas sustentáveis: permitir que vivam livres na natureza, apoiá-los na agricultura familiar ou valorizá-los como animais de estimação”, afirma.
Ações e legislações em andamento
Para tentar frear essa devastação, o Brasil realiza entre os dias 26 e 28 de junho, em Maceió (AL), o 3º Workshop Internacional – Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável. Organizado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) com apoio da The Donkey Sanctuary, o evento marca o lançamento do relatório internacional “Stolen Donkeys, Stolen Futures” e a campanha global “Stop The Slaughter” (“Parem o Abate”). nnAtualmente, tramitam no Congresso Nacional dois projetos de lei que visam proibir o abate de jumentos no país: o PL nº 2.387/2022, já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, e o PL nº 24.465/2022, na Assembleia Legislativa da Bahia, também aprovado na CCJ e aguardando votação em plenário.
Perspectivas e alternativas sustentáveis
Especialistas defendem que o Brasil deve investir em alternativas tecnológicas para substituir o uso de jumentos na produção de colágeno. Roberto Arruda, agrônomo e doutor em economia aplicada pela USP, aponta que soluções como a fermentação de precisão já existem e permitem produzir colágeno em laboratório, sem exploração animal. “Essa é uma oportunidade para o Brasil liderar um modelo mais ético e sustentável”, afirma.
A mobilização internacional também reforça a urgência da questão. Em 2023, a União Africana aprovou uma moratória contra o abate de jumentos para exportação, decisão que já foi adotada por países como Quênia, Nigéria e Tanzânia. A expectativa é que essa medida se estenda por todo o continente africano, reforçando a necessidade de uma mudança global na cadeia de exploração desses animais.
(Com Forbes Brasil)











