‘Vida invisível’ garante lavouras mais produtivas e economia com adubo

Estudo da Rede Agropesquisa reforça a importância da microbiota para o equilíbrio e a eficiência da agricultura paranaense
Um estudo conduzido pela Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada (Rede Agropesquisa) mostra que cuidar da “vida invisível do solo” (minhocas, besouros, formigas, fungos e bactérias) significa menos gasto com adubo e defensivo, mais resistência à seca e lavouras mais produtivas. Por muito tempo, a terra foi tratada apenas como um “suporte” para a planta crescer, cheio de nutrientes e minerais. Hoje, a ciência já entende de outro jeito. Atualmente, a Rede Agropesquisa participa do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Prosolo (Napi-Prosolo), com apoio do Sistema FAEP e da Fundação Araucária.
“A biota do solo é fundamental para o sistema solo-planta. Bactérias, fungos, minhocas, besouros, formigas e uma infinidade de outros organismos formam, junto da água, ar e componentes físicos e químicos, o chamado ‘solo vivo’”, explica o pesquisador Arnaldo Colozzi Filho, doutor em Agronomia do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), em Londrina. “O resultado prático aparece direto no bolso do produtor. A biota vai possibilitar menor adubação com químicos, menor uso de herbicidas e fungicidas. Ou seja, quanto mais ativa e diversificada essa vida no solo, menos insumo externo o produtor precisa usar e maior a rentabilidade da lavoura”, complementa.
A biota decompõe a palhada, recicla os nutrientes e os disponibiliza para a planta absorver. Um exemplo simples disso é a palha que desaparece do chão três meses após a colheita do milho. Isso é resultado do trabalho de insetos, fungos e bactérias fragmentando e decompondo o material e liberando nutrientes de volta ao sistema. Há ainda um efeito de proteção natural contra pragas e doenças, pois alguns organismos podem controlar patógenos de plantas. Um exemplo interessante são fungos de solo que controlam populações de nematoides, organismos que atacam raízes e prejudicam as plantas.
Esse estudo coordenado por Colozzi Filho conta com a participação das pesquisadoras Andrea S. Menoncin (IDR-Paraná) e dos professores Carolina W. Galvão (UEPG), Adriana Knobb (Unicentro), Francielli Gasparotto e Edneia A. S. Pacolla (Unicesumar), Rosilaine Carrenho (UEM) e Dinéia Tessaro e Carlos A. Casali (UTFPR-Dois Vizinhos). Desde 2018, a equipe monitora áreas com e sem terraço em seis regiões do Paraná, acompanhando o que acontece embaixo da terra quando o produtor adota (ou deixa de adotar) práticas conservacionistas.
“O Sistema FAEP tem priorizado pesquisas a campo, porque sabemos que o futuro da agropecuária paranaense passa pela ciência”, destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “É preciso garantir que o solo continue produtivo para as próximas gerações. Por isso, seguimos apoiando essas parcerias com universidades e instituições de pesquisa. É assim que o Paraná se mantém na vanguarda de uma agropecuária moderna, sustentável e competitiva”, completa.
Papel do terraceamento
O terraço é uma estrutura criada para corrigir um desequilíbrio provocado pela própria agricultura. Segundo Colozzi Filho, a função é reduzir o escoamento superficial da água da chuva, fazendo com que permaneça na área e infiltre no solo em vez de escorrer para os rios levando terra, adubo e defensivos.
Sem terraço, o produtor perde em três frentes ao mesmo tempo: nutriente (erosão química), solo (erosão física) e também organismos que vivem na camada superficial da terra (erosão biológica). “Se perde muito do resultado da produção agrícola com o manejo inadequado do solo “, resume o pesquisador.
Já nas áreas terraceadas, a água fica retida na área e infiltra no solo, criando um ambiente mais estável, com menos variação de temperatura e mais umidade disponível — condição ideal para que os microrganismos trabalhem com mais eficiência.
Nas regiões monitoradas pela pesquisa, essa estabilidade se refletiu em mais atividade biológica e, em alguns locais, em aumento expressivo na diversidade de fungos benéficos que vivem associados às raízes das plantas. Em Toledo, por exemplo, o número de esporos de espécies de Fungos Micorrízicos Arbusculares foi 117% maior nas áreas com terraço; em Dois Vizinhos, 39%; e em Cambé, 14%.
“Esses fungos integram um dos milhares de grupos de organismos que habitam o solo. Eles têm uma particularidade importante para produção agrícola: são simbiontes, ou seja, colonizam as raízes das plantas e crescem no solo como se fossem uma extensão da raiz e, assim, permitem que absorvam mais nutrientes, sem prejudicá-la. Uma simbiose perfeita”, explica o pesquisador.
Porém, em regiões de solo mais arenoso, como o Noroeste do Paraná, a atividade biológica é naturalmente menor, por características próprias daquele tipo de solo e clima. Ainda assim, o padrão observado é claro: manter a água no perfil do solo favorece a vida que sustenta a lavoura.
Mundo ideal para organismos
Se o terraço cuida da água, o plantio direto cuida da cobertura e da temperatura do solo. Para Colozzi Filho, a prática é fundamental para um manejo sustentável. O motivo é simples: em solo descoberto, a temperatura na superfície pode chegar a níveis em que parte dos microrganismos perde a atividade. Ao manter a palhada sobre o solo e reduzir ao máximo o revolvimento da terra, o plantio direto reduz essa temperatura, mantém a umidade e as raízes que sobram após a colheita. Essas três condições criam o ambiente favorável para que minhocas, fungos e bactérias prosperem.
O sistema plantio direto vai além de simplesmente não revolver o solo; inclui também rotação de culturas e cultivo em nível — práticas que, somadas ao terraceamento, formam um pacote conservacionista completo.
“É muito importante praticar a ciência para que se possa ter rentabilidade na produção agropecuária e manter o seu solo como um legado para as gerações futuras”, diz o pesquisador.
(Com Assessoria FAEP)











