Crédito privado avança e CPR supera R$ 600 bilhões

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Magnific

A restrição do crédito bancário está levando uma parcela crescente do agronegócio ao mercado privado para financiar o plantio, antecipar receitas e manter o fluxo de caixa. No começo da safra 2026/27, o estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) alcançou R$ 600,3 bilhões, enquanto as linhas tradicionais atendem uma área menor e chegam ao produtor com juros elevados e critérios mais rigorosos.

A mudança aparece nos primeiros meses da temporada. Entre julho e agosto, foram registradas R$ 62,5 bilhões em novas CPRs, valor correspondente a pouco mais de 10% de todo o estoque do instrumento. Os dados constam do Boletim de Finanças do Agro, divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

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O avanço ocorre em um momento de perda de espaço do financiamento convencional. Em 12 meses, a área atendida pelas linhas tradicionais de custeio caiu quase 26%, de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares. O volume de crédito rural contratado sem considerar títulos como as CPRs recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões.

A CPR permite ao produtor obter recursos antes da colheita e assumir o compromisso de entregar o produto ou liquidar financeiramente a operação no vencimento. O título pode ser negociado com bancos, cooperativas, tradings, fornecedores, fundos e investidores, o que amplia as possibilidades de captação fora do crédito rural oficial.

O estoque de agosto estava distribuído entre 359 mil títulos, com valor médio de R$ 1,67 milhão por cédula. O dado revela a capacidade alcançada pelo instrumento, mas também indica que boa parte desse mercado está ligada a operações de maior porte. O número de títulos não corresponde necessariamente à quantidade de produtores atendidos, pois um mesmo emissor pode registrar várias CPRs.

Para propriedades menores, o acesso costuma depender da intermediação de cooperativas, revendas, cerealistas e outras empresas da cadeia. Essas organizações reúnem operações, avaliam o risco e aproximam produtores de fontes de capital às quais dificilmente teriam acesso individualmente.

A expansão representa uma alternativa para quem não consegue contratar todo o custeio necessário nos bancos. Também permite ajustar vencimentos ao calendário de comercialização e utilizar contratos de venda, estoques, recebíveis ou a própria produção como parte das garantias.

A maior disponibilidade de recursos, entretanto, não significa necessariamente financiamento mais barato. O custo pode incluir juros, descontos sobre o preço do produto, taxas de registro, garantias, seguros e cláusulas vinculadas à quantidade ou ao valor da produção. A comparação com o crédito oficial precisa considerar todas essas despesas.

Nas CPRs com liquidação física, o produtor assume o compromisso de entregar uma quantidade determinada do produto. Se houver quebra de safra, poderá precisar comprar grãos no mercado para cumprir o contrato ou negociar novas condições com o credor. Nas CPRs financeiras, o risco está no valor a ser pago e nos critérios de atualização definidos na emissão.

O crescimento do mercado privado também é sustentado pelas Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que encerraram agosto com estoque de R$ 561,29 bilhões. Esses títulos são emitidos pelas instituições financeiras para captar dinheiro de investidores e direcionar parte dos recursos ao setor agropecuário.

Pelas regras do Manual de Crédito Rural, ao menos 60% do estoque das LCAs deve financiar o agronegócio. Sobre o volume de agosto, a exigência representa R$ 336,77 bilhões. Dentro dessa destinação, pelo menos R$ 151,55 bilhões devem ser aplicados em operações do crédito rural oficial.

O mercado inclui ainda os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), com estoque de R$ 174,95 bilhões em julho, e os Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs), com R$ 30,62 bilhões. Os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros) reuniam patrimônio líquido de R$ 65,78 bilhões em 291 fundos.

Esses valores não podem ser simplesmente somados para calcular quanto dinheiro chegou ao campo. Parte dos recursos captados por LCAs e fundos pode financiar CPRs ou recebíveis que já aparecem nas estatísticas de outros instrumentos. Os estoques também incluem contratos de safras anteriores que ainda não venceram.

O conjunto dos dados confirma, porém, uma mudança no financiamento da produção. O modelo passa a combinar crédito oficial, recursos bancários, cooperativas, empresas do setor e mercado de capitais. Para o produtor, isso amplia as alternativas, mas exige maior controle sobre custos, garantias e compromissos assumidos sobre a produção futura.

A CPR acima de R$ 600 bilhões mostra que o capital privado já ocupa uma posição central no agronegócio. O desafio agora é fazer com que essa expansão alcance produtores de diferentes portes e ofereça recursos com prazos e custos compatíveis com uma atividade sujeita a clima, oscilações de preços e ciclos longos de produção.

(Com Pensar Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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