Aromas sintéticos atraem morcegos dispersores de sementes

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Foto: Gledson Bianconi

A atração de morcegos dispersores de sementes por essências aromáticas de frutos  já é um recurso conhecido. Estudos conduzidos por pesquisadores da Embrapa Florestas (PR), do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) constataram que também é possível atraí-los utilizando compostos aromáticos sintéticos ou frações deles. A descoberta abre caminho para uma alternativa potencialmente mais barata e operacionalmente mais simples do que o uso de óleos essenciais puros, além de reduzir a necessidade de coletar frutos silvestres na natureza.

Os resultados da pesquisa, desenvolvida pelos pesquisadores Gledson Bianconi (IFPR), Lays Cherobim (PUC-PR) e Sandra Mikich (Embrapa Florestas), estão apresentados na publicação Tecnologia de restauração florestal baseada na atração de morcegos dispersores de sementes. O conteúdo é voltado a pesquisadores, técnicos ambientais, gestores públicos, proprietários rurais e ONGs envolvidas em projetos de restauração ecológica.

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Origem da técnica e o uso de sintéticos

Desde 2003, a técnica vem sendo estudada a partir do uso de óleos essenciais de frutos preferidos por morcegos frugívoros (que se alimentam de frutos). Guiados pelo olfato, esses animais sobrevoam as regiões e dispersam sementes por meio de suas fezes, promovendo uma “chuva de sementes” natural que acelera a recuperação da vegetação.

“Nossos estudos mostraram que morcegos dos gêneros Artibeus (foto abaixo), Carollia e Sturnira são altamente atraídos por óleos essenciais de frutos de plantas dos gêneros Ficus (figueiras), Piper (jaborandis) e Solanum (tomates silvestres). Essa atração aumenta significativamente a dispersão de sementes”, aponta a pesquisadora Sandra Mikich.

 

 

Nos últimos seis anos, os pesquisadores testaram frações desses óleos e substâncias equivalentes produzidas artificialmente. “Trabalhamos para identificar quais partes dos óleos naturais eram responsáveis pela atração dos morcegos. Mas o melhor resultado foi constatar que compostos sintéticos já disponíveis no mercado têm efeito atrativo semelhante quando utilizados em pequenas quantidades”, explica Mikich.

A técnica é uma alternativa complementar baseada em semioquímicos (substâncias que transmitem sinais químicos e influenciam o comportamento dos organismos). Lays Cherobim,  pesquisadora da PUC-PR, ressalta que o uso de substâncias sintéticas traz ganhos ambientais imediatos. “A solução evita a coleta intensiva de frutos silvestres na natureza, necessária para extrair óleos puros. Muitas vezes, 500 gramas de frutos rendem apenas algumas gotas de óleo natural”, observa.

Restauração mais barata, rápida e diversificada

A restauração de ecossistemas degradados é um desafio global, especialmente em biomas fragmentados como a Mata Atlântica, da qual restam apenas cerca de 12,4% da cobertura original, segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O pesquisador Gledson Bianconi (IFPR) destaca que o grande diferencial da tecnologia é a integração entre baixo custo, simplicidade operacional e eficácia ecológica. “O uso de compostos aromáticos comerciais torna a estratégia operacionalmente mais simples e possibilita a aplicação em maior escala, inclusive em áreas extensas ou de difícil acesso. A proposta é estimular processos naturais de dispersão de sementes, reduzindo a dependência exclusiva do plantio de mudas e aproveitando o próprio funcionamento ecológico da fauna”, afirma.

Cherobim reforça que a alternativa é mais prática do que o plantio direto de mudas nativas. “Produzir e manter mudas exige etapas longas e custosas: conhecer o ciclo da espécie nativa, coletar sementes, germiná-las em estufa, acompanhar o desenvolvimento e realizar o plantio”, compara.

Além da economia, há ganho em biodiversidade. Os morcegos frugívoros estão presentes em diversas regiões tropicais e subtropicais, o que indica potencial para adaptação da técnica em diferentes biomas. A dispersão fecal traz sementes de espécies pioneiras e secundárias, encontradas em remanescentes florestais próximos e raramente utilizadas em reflorestamentos convencionais, o que enriquece o ecossistema.

 

 

Próximos passos e ODS

 

Os autores ressaltam que, apesar do grande potencial, são necessários novos estudos para definir protocolos específicos de aplicação e avaliar o impacto da técnica na regeneração vegetal a longo prazo.

De acordo com Mikich, os cientistas planejam identificar novos compostos, medir a atratividade de cada um e testar equipamentos de monitoramento noturno, como câmeras infravermelhas. “Trata-se de um avanço significativo em soluções baseadas na natureza. A técnica reforça o papel fundamental dos animais na manutenção e restauração do equilíbrio ecológico”, ressalta.

A iniciativa alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente ao ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e ao ODS 15 (Vida Terrestre).

 Como funciona a dispersão do aroma no campo?

 

Para aplicar o aroma na área que precisa ser recuperada, os pesquisadores utilizam um septo de borracha de látex (foto acima), semelhante à tampa de borracha de um frasco de medicamento.

Inicialmente, tentou-se usar papel-filtro, mas o método foi descartado porque o cheiro evaporava rápido demais e a água da chuva lavava o produto. O septo de borracha, por outro lado, possui poros que absorvem a substância e a liberam gradualmente. Em testes em cativeiro, o dispositivo manteve a liberação do aroma por um período de 20 a 25 dias.

Os dispositivos são pendurados em árvores. Segundo Mikich, não há uma exigência rígida quanto ao espaçamento entre eles: “Os morcegos percebem o odor enquanto sobrevoam áreas abertas e passam a circular pelo local tentando localizar o fruto. Esse aumento no tempo de permanência dos morcegos na área eleva a probabilidade de defecação e resulta na queda de sementes diretamente no solo degradado”, conclui.

 

(Com Manuela Bergamim/Embrapa Florestas)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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