Ilha das Cobras: 55 jararacas por hectare

Basta uma busca simples na internet para se deparar com matérias, fotos e vídeos que descrevem a Queimada Grande – nome “verdadeiro” da ilha, localizada no litoral sul de São Paulo – como um dos points mais perigosos do mundo. O motivo para isso é que ela é “tomada” por uma serpente peculiar: a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis).
Venenosa, a espécie endêmica – ou seja, que não ocorre em nenhum outro lugar do planeta – também carrega má fama, sendo frequentemente descrita como agressiva. Além disso, o animal seria portador de uma peçonha para lá de poderosa, capaz até de derreter a carne humana, deixando apenas os ossos daqueles que cruzassem o seu caminho para “contar a história”.
Mas será que tudo isso é verdade? Para responder às diversas dúvidas que pairam sobre o local e sua temida moradora, o Portal do Butantan conversou com especialistas da casa para tirar a prova real – ou científica – e entender o que, de fato, é mito ou realidade nesse oceano de lendas e boas histórias. Confira:

1. A Ilha da Queimada Grande é um dos lugares mais perigosos do mundo
VERDADE. Localizada a 35 quilômetros da costa do município de Itanhaém, a Queimada Grande possui uma população de cerca de 3.000 espécimes de B. insularis. Com uma média de 55 jararacas por hectare, a ilha é a segunda do mundo com a maior densidade populacional de serpentes, ficando apenas atrás da Ilha de Shedao, na China, que reúne 200 exemplares do réptil por hectare.
“Isso significa que, ao andar pela ilha, são altas as chances de cruzar com essa serpente peçonhenta, que tem capacidade para provocar algum tipo de acidente”, afirma a bióloga e tecnologista do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan (LEEv) Karina Kasperoviczus.
É importante esclarecer que “cruzar com a jararaca” da Queimada Grande não significa vê-la, de fato. Afinal, é preciso ter um olhar bastante treinado – como o dos pesquisadores do Butantan – para visualizar o animal. Por vezes, é difícil encontrar a serpente, que frequentemente acaba se escondendo no meio da vegetação.
Talvez você já tenha visto uma “foto” que rodou a web, com milhares de cobras rastejando pelas encostas da ilha, como se fosse impossível encontrar uma brecha para colocar o pé no chão. Esqueça essa imagem: ela não é real. E, detalhe: a maioria das serpentes mostradas ali nem são jararacas-ilhoa.
Outro fator que adiciona ao grau de periculosidade da ilha é a própria geografia do terreno, que é bastante acidentado. Com diversas formações rochosas, o sobe e desce constante da trilha pode pregar surpresas dolorosas, como quedas e escorregões – vale lembrar que boa parte do caminho que corta o local de uma ponta a outra margeia abismos com queda livre para o mar.
“O desembarque também é um dos principais desafios a ser superado quando visitamos a Ilha da Queimada Grande. Como lá não tem praia, é preciso ‘saltar’ do barco na hora certa e ‘aterrissar’ em uma rocha escorregadia. Quando as ondas estão um pouco mais altas, fica ainda mais complicado. É uma aventura mesmo”, brinca o pesquisador científico do LEEv Otavio Marques.

2. A Ilha da Queimada pode ser visitada por qualquer pessoa que queira conhecê-la
MITO. O local, que faz parte da Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) da Queimada Pequena e Queimada Grande, é uma Unidade de Conservação Federal de Uso Sustentável e encontra-se sob a gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Por conta disso, apenas pesquisadores portadores da chamada licença Sisbio, concedida pelo órgão, têm autorização para visitar a localidade. A permissão é essencial para realizar a coleta de material biológico e conduzir estudos científicos em áreas protegidas. “Caso alguma pessoa seja pega na ilha sem a devida autorização do ICMBio, ela pode ser presa e responder por crime ambiental”, alerta Karina Kasperoviczus.
3. As jararacas da Queimada Grande são “máquinas assassinas” que atacam as pessoas
NÃO É BEM ASSIM. “A B. insularis usa bastante a vegetação e a copa das árvores. Como as pessoas têm o costume de andar olhando para o chão, elas acabam sendo surpreendidas e se deparam com a serpente em locais que não esperavam. Talvez venha daí esse mito”, pondera Otavio Marques.
O fato de terem hábitos mais arborícolas não significa que as ilhoas vão pular em cima de alguém ou atacar aqueles que, porventura, cruzarem o seu caminho. “Quando uma pessoa chega muito perto e a serpente se sente ameaçada, ela pode adotar dois comportamentos: fugir ou se defender dando o bote”, reforça Karina Kasperoviczus.
Se o animal picar alguém na ilha, a distância da unidade de atendimento hospitalar mais próxima com disponibilidade de soro antiofídico também se torna um agravante – só o percurso de barco leva cerca de duas horas, quando o mar está em boas condições. Vale lembrar que, passadas três horas do envenenamento, o risco de agravamento do quadro aumenta consideravelmente.
4. O veneno da jararaca-ilhoa é muito mais potente que o da jararaca do continente
MITO. Até hoje a B. insularis é conhecida e temida pela potência de seu veneno. Na internet, é comum encontrar informações bastante exageradas, que descrevem sua peçonha como capaz de “derreter” a carne humana – o que está bem longe de ser verdade.
“Dadas as devidas proporções, essa questão do veneno foi baseada em um conhecimento científico que se perpetuou, mas há tempos já foi atualizado”, explica a pesquisadora científica do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan Selma Almeida-Santos.
A informação começou a ganhar o mundo ainda na década de 1920, quando o então herpetólogo da extinta Seção de Ofiologia do Butantan Afrânio do Amaral (1894-1982), responsável por encabeçar as primeiras expedições à Ilha da Queimada Grande, conduziu experimentos com o veneno da jararaca-ilhoa.
Os testes consistiram em injetar diretamente a peçonha na circulação sanguínea de pombos. Diante dos efeitos, ele concluiu que a espécie era uma das mais venenosas do Brasil, e que seu veneno seria cinco vezes mais potente do que o da jararaca do continente (Bothrops jararaca).
Porém, um novo estudo conduzido nos anos 2000 colocou os dados por terra ao concluir que o veneno da jararaca-ilhoa não é mais potente, mas apenas mais efetivo para predar as aves – no entanto, trata-se de uma característica compartilhada com a jararaca continental.

5. O veneno da jararaca-ilhoa é essencial para a produção do soro antiofídico produzido pelo Instituto Butantan
MITO. A peçonha da B. insularis não é utilizada na produção do soro hiperimune. Atualmente, a substância é coletada apenas para pesquisa – é preciso ter uma licença especial concedida pelo ICMBio a fim de realizar tal procedimento.
Em caso de acidentes com a espécie, o tratamento é realizado com o soro antibotrópico, fabricado com o veneno de diferentes tipos de jararacas do gênero Bothrops. O número de ampolas aplicadas varia de acordo com a gravidade de cada quadro.

6. As Bothrops insularis são serpentes enormes, podendo atingir mais de 1,5 metro
MITO. A jararaca-ilhoa é considerada uma espécie pequena: as fêmeas são maiores e atingem, em média, 70 centímetros, ao passo que os machos não ultrapassam os 60 – para efeito comparativo, a jararaca do continente pode alcançar cerca de 1,5 metro.

Os especialistas acreditam que o porte reduzido da serpente tenha relação com sua maior restrição alimentar; já que, para comer, a jararaca-ilhoa depende da migração de duas aves: a guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis) e o sabiá-una (Turdus flavipes) – como esta última é uma espécie maior, apenas as serpentes fêmeas parecem ser capazes de predá-la. Além disso, aparentemente os machos não saem em busca de recursos alimentares na época de migração do sabiá-una.
(Reportagem: Natasha Pinelli)
Fernanda Toigo
Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.
Mais Notícias

Exportações de pescado caem 54% e novo tarifaço preocupa
A possibilidade de os Estados Unidos ampliarem em 25% as tarifas...
Ler Mais
Estado é o 3º maior exportador de peru do Brasil; safra de amendoim deve ter recorde
O Boletim Conjuntural do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da...
Ler Mais
FAEP orienta produtor para oportunidade de subvenção diferenciada ao PSR
Os produtores rurais paranaenses podem obter subvenção federal maior, com base...
Ler Mais
Inmet emite aviso amarelo para queda de temperatura
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) divulgou um aviso amarelo, que...
Ler Mais
Campanha de Atualização de Rebanhos chega a 47,7% das propriedades
Ao final do primeiro mês da Campanha de Atualização de rebanhos,...
Ler Mais
Estado assina decreto que tributa a entrada de tilápia do Vietnã
A piscicultura paulista ganhou um novo instrumento de proteção diante do...
Ler Mais
A agricultura com muito mais precisão
Cinco La Niña e um El Niño em seis anos. Os...
Ler Mais
FAEP prevê novas oportunidades após China reconhecer Brasil livre de febre aftosa
O reconhecimento do território brasileiro como área livre de febre aftosa...
Ler Mais
PRF apreende maconha e pasta base de cocaína escondida em carga de soja
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) interceptou, na manhã desta terça-feira (02),...
Ler Mais
Pesquisa agrícola impulsiona liderança de Estado nas exportações de sementes
Em tempos marcados por alertas climáticos e pressão crescente sobre a...
Ler Mais
China reconhece Brasil como País livre de febre aftosa
A China reconheceu o Brasil como País livre de febre aftosa...
Ler Mais
Cotações Agropecuárias: Alta oferta faz preço do mamão formosa recuar
Ao longo de maio, as cotações do mamão formosa apresentaram quedas...
Ler Mais