ELDORADO DO SUL, UMA CIDADE FANTASMA E ARRASADA PELA ENCHENTE

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Enchente arrasou Eldorado do Sul | ANSELMO CUNHA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

O motor de “Gulu”, a lancha de Ricardo Frediani, ruge cortando as águas do Guaíba, que inundou Porto Alegre. Ele segue rumo à devastada Eldorado do Sul, coberta pelas águas da enchente histórica do Rio Jacuí.

A chuva está de volta e o tempo urge para salvar quem for possível. Enquanto isso, no bairro Medianeira, na mesma localidade, Katiane Mello espera que alguma embarcação a leve até o que um dia foi sua casa. Ela partiu na quinta-feira, dia 2 de maio, quando as chuvas torrenciais que caíram sobre o estado de Rio Grande do Sul fizeram o rio transbordar e a água chegar ao nível do segundo andar, onde vivia com seu marido James Vargas e sua filha Natália, de 5 anos.

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As águas barrentas do Guaíba registram um incessante ir e vir de embarcações que transportam alimentos para quem se recusa a deixar sua casa apesar do perigo. Uma lancha policial vigia a entrada do bairro submerso. “A água está baixando pra caramba”!”, exclama Ricardo, enquanto pede a seu filho Guilherme, estudante de Odontologia de 26 anos, que lhe ajude a estabilizar a lancha com um remo. A vazante causa uma forte corrente porque a água busca uma saída pelas ruas alagadas. Na popa, destaca-se a silhueta moderna de Porto Alegre, a capital estadual de 1,4 milhão de habitantes enlutada por uma tragédia que já ceifou mais de cem vidas.

Barcos e botes no lugar de carros em Eldorado do Sul | NELSON ALMEIDA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

 

Cidade de Eldorado do Sul terá que se reconstruída | CARLOS FABAL/AFP/METSUL METEOROLOGIA

 

Mesmo veículos pesados do Exército encontraram dificuldades na grande enhente | CARLOS FABAL/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Na proa, a imagem é dramática: casas submersas, carros destruídos, lojas inundadas. As cabeças dos tripulantes passam a menos de um metro dos cabos de energia elétrica, desconectados. Algumas pessoas observam dos telhados. São aqueles que não quiseram sair “por medo de arrombamentos”, explica à AFP Frediani, um vendedor de lubrificantes de 62 anos que coloca a mão sobre o coração quando perguntado por que arrisca sua própria vida na inundação.

Agora “Gulu” avança de maneira lenta, desviando dos postes do sistema de energia elétrica inclinados e dos tetos de carros parcialmente cobertos. A resistência da água o obriga a forçar o motor. “Ontem a corrente não tinha essa força”, conta Frediani.

Prefeito de Eldorado pediu que população inteira evacuasse a cidade devido à enchente | NELSON ALMEIDA/AFP/METSUL METEOROLOGIA.

 

Grande parte de Eldorado do Sul somente pode ser acessada por barcos | NELSON ALMEIDA/AFP/METSUL METEOROLOGIA

A uns 400 metros é possível ver movimento. Serão moradores ou a polícia? Os muitos socorristas afirmam que houve muitos saques e o local se tornou perigoso. A presença de efetivos de segurança fortemente armados é ostensiva. Katiane está nesse grupo de moradores, no final da rua, com a esperança de conseguir se aproximar de sua casa. “Gulu” chega ao destino e Katiane pergunta se é possível caminhar pela água. “Perdemos o nosso ganha-pão, […] a loja de conveniência. E a casa…”, conta, interrompendo a fala. Ela poderia ser arrastada pela corrente. Frediani e seu filho oferecem um lugar no barco para ir a sua casa, ou o que tiver sobrado dela. “A gente não sabe como é que está [a casa] … Olha a altura [da água]. Jesus Cristo!”, exclama a mulher.

Katiane Mello e seu marido James Vargas choram antes de sair de casa em Eldorado do Sul. Equipes correram contra o relógio para entregar ajuda aos poucos que ainda seguem em Eldorado do Sul | CARLOS FABAL/AFP/METSUL METEOROLOGIA

Katiane não pôde conter as lágrimas. A paisagem é de destruição total. Era seu bairro, sua vida e a de sua família. A poucos metros, surge a residência. “Tá aí! Eles terão arrombado?”. Frediani e seu filho observam a cena em silêncio. Katiane prende a respiração. Alguém a segura até que acontece o que para esta mulher é um milagre… “Está intacto!”, afirma o marido. James chegou antes. Com a falta de sinal de celular, o marido não conseguiu fazer contato. Ela se lança do barco na água, sobe as escadas e, no caminho, recolhe a roupa jogada, úmida, irrecuperável. Tudo está lá. Ela acreditava que a família tinha perdido o que havia construído com tanto sacrifício. E abraça o marido com força. Nas paredes há fotos da pequena Natália, do casal quando era jovem, de seus pais, hoje idosos e enfermos. Uma placa de madeira diz: “Amor eterno. Família”. Frediani e seu filho Guilherme sorriem da água, abraçados a “Gulu”. A MetSul Meteorologia está nos canais do WhatsApp. Inscreva-se aqui para ter acesso ao canal no aplicativo de mensagens e receber as previsões, alertas e informações sobre o que de mais importante ocorre no tempo e clima do Brasil e no mundo, com dados e informações exclusivos do nosso time de meteorologistas.

(Por Maurício Rabuffetti em Eldorado do Sul, Metsul)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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