Tilapicultura: 40% dos produtores tem a atividade como diversificação de renda

Fernanda Toigo

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Imagem: Pixabay

Uma das atividades que vem colocando a região Oeste do Paraná em destaque nacional e internacional nas últimas décadas é a tilapicultura. A produção começou a emergir como atividade econômica na década de 1980 e de lá para cá teve um salto significativo sob diversos aspectos. E foi esse crescimento que levou o professor do curso de Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar na Unila (Universidade Federal da Integração Latino Americana), Dirceu Basso, a desenvolver um estudo, que consiste em um verdadeiro raio-x da atividade. O trabalho teve início há dois anos, e ainda está em curso, mas alguns resultados já foram encontrados. “Esse trabalho é resultado de um grupo de pesquisa de professores da Unila, Unioeste, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também do diálogo com pesquisadores da França. O tema geral é a discussão sobre sistemas agroalimentares, e optamos por fazer um recorte e entender mais sobre a piscicultura, com foco na produção de tilápias. A pergunta que nos orientou o trabalho inicialmente foi analisar a participação das associações de produtores e cooperativas na cadeia produtiva do Oeste do Paraná” explica o pesquisador. 

Quatro redes de produção 

Ao longo do trabalho quatro redes de tilapicultura foram identificadas: rede de proximidade; rede de lazer e gastronomia; rede de beneficiamento de pequeno e médio porte; rede de commodities. O estudo indicou cerca de 2,3 mil produtores do peixe, e a maior parte deles se concentra na rede de proximidade. “Mais de mil famílias fazem parte da rede de tilapicultura de proximidade, ou seja mais de 40% do total. São produtores que cultivam para consumo próprio, vendem para o vizinho, a comunidade quando quer comprar vai até a casa dele, ou seja sem compromisso prévio e as vendas ocorrem a partir de relações de confiança, não há contrato formal.  Esse produtor não tem parceria com empresas, ele tem a atividade como meio de diversificar e complementar a renda familiar. O uso de tecnologia é considerado baixo, alguma até média, mas o investimento não é significativo”, relata Dirceu Basso.

Na sequência da classificação aparece a rede de lazer e gastronomia, que na região concentra cerca de 30 a 40 famílias. A rede é formada por piscicultores que têm pesque-leva, pesque-solta (que prioriza o lazer e a prática esportiva) e ainda os restaurantes que ficam nesses locais e que oferecem uma gastronomia especializada com foco nos pescados. Nesses casos todo o processo de processamento ocorre na propriedade. A necessidade de investimento e inovação fez com que muitas famílias deixassem a atividade nos últimos anos” lamenta o pesquisador. 

A terceira rede é a beneficiamento de pequeno e médio porte, aproximadamente 500 produtores encontram-se inseridos neste grupo. Esta rede começou a tomar forma a partir dos anos 2.000, quando conjuntos de famílias passaram a construir agroindústrias e comprar a produção de tilapicultores do entorno a fim de processar, embalar e comercializar o produto, inicialmente para o mercado regional, mas logo alcançando outros Estados. O pesquisador destaca que neste formato a compra da produção se dá por meio de relação de confiança, não há um contrato entre o produtor e o entreposto, é uma parceria informal e que dá muito certo. Outra característica desse sistema é que as agroindústrias têm sistema de inspeção municipal, que é mais em conta. A tecnologia empregada é considerada média/alta e grande parte dos produtores depende de financiamento para custeio e investimento na atividade”. 

COMMODITIES

Por fim chegamos a rede de tilapicultura de commodities, onde estão concentrados cerca de 550 produtores. Essa nomenclatura está relacionada ao fato de os piscicultores estarem vinculados a cooperativas e empresas de grande porte e por isso tem produção em escala maior e com relação comercial formal. “Nesta rede há uma formalização da atividade por meio de um contrato de integração celebrado entre cooperativa e produtor (semelhante ao que ocorre com outras cadeias como suinocultura e avicultura). Ao produtor cabe os investimentos na sua unidade de criação e as cooperativas fornecem os insumos e os serviços técnicos. Nesta rede o sistema de inspeção é o Federal. No momento, as empresas agroindústrias operam com base num sistema de parceria híbrida, fornecendo alevinos e ração e atuando por ciclo produtivo, sem estabelecer garantias de longo prazo” observa o pesquisador. 

Com o estudo fica evidente que é a entrada dessas cooperativas no cenário regional que faz com que a produção deslanche para o nível que se encontra hoje. “O Oeste é um polo de referência em termos de Brasil na produção de tilápia. São mais de 40 anos de história, mas a chegada e o crescimento que alavanca de forma significativa a atividade e nos leva a alcançarmos mercados internacionais como os Estados Unidos. Porque as grandes cooperativas já têm todo um sistema de logística, tecnologia e conhecimento, já utilizados na produção de outras proteínas e foi adaptado para o mercado da tilápia” revela Dirceu Basso. 

Análise do cenário 

As redes identificadas, o pesquisador aponta fatores que contribuíram para o rápido desenvolvimento do segmento, se comparado a outras cadeias produtivas. “O que a gente observa é que a construção das quatro redes é resultado da coalizão de esforços de órgãos governamentais, universidades e empresas privadas, cooperativas e agricultores”, garante Basso. 

O professor aponta ainda que o estudo não tem objetivo de apontar a melhor rede, mas retratar a importância de cada uma, demonstrando as que já tiveram avanços tecnológicos e as que precisam de políticas públicas para suas características. “Todas dinamizam o desenvolvimento da região, produzem produtos para públicos diferentes e a criação de políticas públicas direcionadas pode fomentar a consolidação e ampliação de cada rede. Esperamos que nosso estudo leve o poder público a olhar com mais atenção para esse segmento e fomente a expansão da atividade. O ideal é que em 5 a 10 anos tenhamos 4 a 5 mil piscicultores compondo esses grupos”, finaliza o pesquisador. 

O estudo tem sequência com a análise mais aprofundada das redes e a forma como foram construídas, a fim de compreender a contribuição das associações e cooperativas dos agricultores e das grandes cooperativas nesta cadeia produtiva. 

Produção de Tilápia no Brasil 

Nos últimos anos a tilápia assumiu o posto de peixe mais cultivado na piscicultura brasileira. No ano passado, foram produzidas em todo o país 550.060 toneladas da espécie, volume que representa 63,93% da produção nacional de peixes de cultivo. E o destaque neste cenário é o Paraná, que produz mais de 34% de todo este volume, que acordo com dados do “Anuário 2023 Peixe BR da Piscicultura”. 

De acordo com a Associação Brasileira de Piscicultura, fatores que colaboram para esse destaque e preferência é que a tilápia possui proteína de alta qualidade, preço competitivo e preparo. A expectativa é que até 2030, a tilápia deve responder por 80% da produção nacional e nesse ritmo o Brasil assuma o posto de terceiro maior produtor mundial em três ou quatro anos.

Além da maior procura no mercado nacional, a tilápia responde por 88% das exportações brasileiras de pescado, atendendo sobretudo os Estados Unidos. O mercado norte-americano corresponde a 83% da tilápia que o Brasil exporta. E o segundo mercado mais significativo é Taiwan, que compra principalmente os produtos não comestíveis, como pele, escama, farinha e óleo.

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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