AGRICULTURA

Gasolina E32 amplia mercado para cana e milho

A gasolina com 32% de etanol que começa a entrar nos postos neste sábado, 1º de agosto, cria uma demanda adicional para duas importantes cadeias do agronegócio brasileiro: a cana-de-açúcar e o milho. Se a nova mistura for mantida durante um ano, o País poderá consumir cerca de 900 milhões de litros adicionais de etanol anidro, volume suficiente para mobilizar milhões de toneladas de matéria-prima agrícola.

A mudança eleva de 30% para 32% a participação do etanol anidro na gasolina comum e aditivada. Em cada mil litros de combustível vendido, as distribuidoras passarão a utilizar 320 litros de etanol, ante 300 litros anteriormente. Isso representa aumento de 6,7% no volume do biocombustível necessário para produzir a mesma quantidade de gasolina.

Sorgo ganha mercado e pode alcançar 200 mil hectares

Como a medida terá vigência inicial de 180 dias, o efeito imediato deverá ficar próximo da metade da estimativa anual, ou cerca de 450 milhões de litros adicionais de etanol. O prazo poderá ser prorrogado uma vez por mais 180 dias. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o combustível chamado de E32 permitirá substituir até 900 milhões de litros de gasolina por ano, reduzindo as importações do derivado de petróleo.

Embora se fale genericamente em etanol, o Brasil produz dois combustíveis diferentes. O hidratado é aquele vendido diretamente nas bombas e utilizado principalmente nos veículos flex. O anidro possui praticamente toda a água retirada durante o processo industrial e é obrigatoriamente misturado à gasolina. É apenas o mercado do anidro que cresce diretamente com a adoção do E32.

A matéria-prima, entretanto, pode ser a mesma. O etanol anidro e o hidratado podem ser produzidos tanto a partir da cana-de-açúcar quanto do milho. A diferença entre os dois produtos está no teor de água e na destinação, não na origem agrícola.

A cana ainda é a principal matéria-prima. Em 2025, o Brasil produziu 35,9 bilhões de litros de etanol, considerando anidro e hidratado. Desse volume, aproximadamente 9 bilhões de litros, ou 25%, vieram do milho. A maior parte restante, próxima de 27 bilhões de litros, foi produzida pela indústria canavieira. Os volumes provenientes de outras matérias-primas ainda são pouco representativos comercialmente.

A soja não é utilizada de forma relevante na produção brasileira de etanol. Sua principal participação no mercado de biocombustíveis ocorre no biodiesel, fabricado majoritariamente com óleo de soja e misturado ao diesel. A oleaginosa tem uma ligação indireta com o etanol de milho porque o cereal costuma ser cultivado na segunda safra, depois da colheita da soja.

Também existem projetos de etanol de segunda geração, produzido a partir do bagaço e da palha da cana. O sorgo, o trigo, o triticale e outros cereais podem ser usados no processo de fermentação, mas ainda possuem participação pequena diante do domínio da cana e do crescimento acelerado do milho.

Para dimensionar o possível efeito no campo, uma tonelada de cana produz, em média, entre 75 e 85 litros de etanol, dependendo da qualidade da matéria-prima e da eficiência industrial. Já uma tonelada de milho pode render aproximadamente 360 a 430 litros.

Se os 450 milhões de litros adicionais previstos para os primeiros seis meses fossem produzidos somente com cana, seriam necessárias aproximadamente 5,5 milhões de toneladas da matéria-prima. Se todo o volume viesse do milho, a demanda ficaria entre 1 milhão e 1,25 milhão de toneladas do cereal.

Esses são cenários teóricos, porque as usinas deverão atender à nova demanda com uma combinação de cana, milho, estoques e mudanças internas no planejamento industrial. Parte do etanol que seria vendida como hidratado também poderá ser desidratada e direcionada à mistura com a gasolina. Nas usinas de cana, ainda existe a possibilidade de alterar parcialmente o chamado mix, reduzindo a produção de açúcar para ampliar a fabricação de etanol.

Para o fornecedor de cana, o primeiro efeito tende a aparecer na procura e no preço do etanol anidro negociado pelas usinas. Se o combustível se valorizar, a melhora pode chegar ao produtor por meio do valor do Açúcar Total Recuperável, o ATR, utilizado como referência para calcular a remuneração da cana. O repasse, contudo, depende das regras adotadas em cada região, dos contratos e do comportamento simultâneo dos preços do açúcar e do etanol hidratado.

O produtor de milho também passa a contar com uma demanda industrial maior, principalmente nas regiões próximas às usinas de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. Como o transporte representa uma parcela importante do custo do cereal, o impacto costuma ser mais forte no mercado regional do que na cotação nacional. Municípios atendidos por novas plantas podem registrar maior disputa pelo grão, redução dos excedentes locais e melhores condições de comercialização.

Isso não significa que a saca de milho ou a tonelada de cana subirão automaticamente. O Brasil entra no período de vigência do E32 com uma produção elevada de etanol, avanço das usinas de milho e possibilidade de remanejamento entre anidro e hidratado. Os estoques existentes também podem absorver parte da demanda inicial.

A decisão, porém, acrescenta um comprador obrigatório à equação. Enquanto o motorista pode escolher entre gasolina e etanol hidratado, o consumo do anidro é determinado pelo percentual estabelecido pelo governo. Cada litro de gasolina comum vendido no País passa a carregar uma parcela maior da produção agrícola brasileira.

Para o campo, portanto, o benefício mais imediato é a garantia de mercado. A cana ganha mais uma alternativa diante das oscilações do açúcar, e o milho amplia sua demanda além das rações e das exportações. O ganho de preço dependerá da duração do E32, do consumo de gasolina e da capacidade das usinas de atender ao novo volume sem recorrer apenas aos estoques ou reduzir a oferta de etanol hidratado.

(Com Pensar Agro)

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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