El Niño bagunça o clima e pode piorar

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Enchente em Lajeado nesta semana | PREFEITURA DO MUNICÍPIO

O fenômeno El Niño provoca uma enorme ruptura no padrão do clima na América do Sul neste mês de julho e que tende a se aprofundar nos próximos meses com toda a sorte de extremos que incluem frio excessivo, potentes ondas de calor, chuva excessiva com inundações e enchentes, e ainda muitas tempestades.

A análise é da MetSul Meteorologia a partir de dados meteorológicos observados nos meses do outono e o começo do inverno comparados com as projeções dos modelos de previsão do tempo e clima para as próximas semanas e meses. A segunda metade do outono e o começo do inverno foram muitos frios com uma alta frequência de massas de ar de origem polar que trouxeram frio mais persistente que o habitual, o que acabou por reduzir a chuva mais ao Sul do Brasil e trouxe volumes de precipitação mais altos do que o normal no auge da temporada seca.

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O Rio Grande do Sul experimentou em maio 13 dias com mínimas abaixo de zero, um número muito alto para o quinto mês do ano e mais comum de se observar em junho e julho. A temperatura desceu a -4,8ºC em Pinheiro Machado, no dia 19. Em junho, o estado gaúcho anotou 14 dias com marcas negativas, quase todas durante a segunda metade do mês. O menor registro foi de -6,4ºC no dia 16 de junho, também em Pinheiro Machado.

Em Santa Catarina, o Planalto Sul teve três dias seguidos com marcas de ao menos 8ºC negativos e a mínima anual em Bom Jardim da Serra, de -9,2ºC, no dia A primeira semana de julho seguiu muito fria com marcas abaixo de zero em vários dias, mas o que chamou a atenção foi a temperatura com dias nebulosos e úmidos em que a temperatura sequer alcançou os 10ºC.

Na região do Prata, o padrão foi quase idêntico com meses de maio, junho e o começo de julho muito frios em Montevidéu e em Buenos Aires. O Uruguai registrou a menor temperatura média em maio desde 2007, ano de inverno extremamente rigoroso na região e que chegou a ter neve com acumulação na cidade de Buenos Aires.

NO MEIO DE JULHO, O EL NIÑO PROVOCA UMA RUPTURA QUE COMEÇOU COM CALOR

Entre a segunda e a terceira semana de julho, à medida que a atmosfera finalmente passou a ter condições clássicas de El Niño nas latitudes médias da América do Sul, o padrão climático mudou quase por completo em relação ao que vinha se registrando com calor histórico, chuva excessiva e enchentes.

Houve invasão de ar excepcionalmente quente no Oeste, Centro, Norte e o Nordeste da Argentina com uma poderosa e atipicamente corrente de jato em baixos níveis. Dados do Serviço Meteorológico Nacional da Argentina mostram uma sequência excepcional de recordes de temperatura para julho durante os dias 17 e 18 de julho, com marcas históricas tanto nas mínimas altas recordes (madrugadas muito quentes) quanto nas temperaturas máximas da tarde.

O calor extraordinário se fez sentir também no Rio Grande do Sul com máximas acima de 35ºC nos dias 17 e 18. Na tarde do dia 18, Porto Alegre registrou a maior máxima no mês de julho desde o começo das medições em 1910, com 33,8ºC, superando o recorde anterior de 32,9ºC, dos dias 30 de julho de 1941 e 25 de julho de 1987.

NA SEQUÊNCIA, EXCESSO DE CHUVA E TÍPICOS DE EL NIÑO

Depois de dias de calor absolutamente fora do normal, com temperaturas máximas até 15ºC acima do comum para julho nos dias 17 e 18, o Rio Grande do Sul ingressou em um período de enorme instabilidade com chuva excessiva e alguns temporais, o que levou às enchentes.

Mais de 200 cidades do estado enfrentaram danos por vento Norte, temporais com granizo e vendavais, e chuva, em tão-somente apenas uma semana, o que corresponde a 40% de todos os 497 municípios do Rio Grande do Sul. Muitos rios do estado superaram cotas de inundação, muitos pequenos cursos d´água, mas também rios maiores como o Caí, Taquari, Sinos, Jacuí e o Uruguai. Em algumas localidades, as inundações ainda persistem.

TEMPORAL HISTÓRICO NO CHILE

Um temporal histórico, associado às mudanças na circulação atmosféricas geradas pelo El Niño, atingiu o Chile a partir da metade do mês e deixou um rastro de destruição em diversas regiões do país, mas foi no Deserto do Atacama, a área não polar mais seca do planeta, que ocorreu um dos episódios mais extraordinários já registrados. Em apenas quatro dias, algumas áreas acumularam cerca de 250 milímetros de chuva, volume equivalente ao esperado para aproximadamente quatro anos, provocando enchentes, enxurradas, transbordamento de rios temporários e destruição de pontes, estradas e sistemas de abastecimento em uma região pouco preparada para precipitações tão intensas.

LUCAS AGUAYO ARAOS/ANADOLU/AFP/METSUL

O mais recente balanço das autoridades chilenas aponta 13 mortos, quatro desaparecidos e mais de 3.400 pessoas diretamente afetadas pelo desastre. Além disso, mais de 63 mil moradores permanecem isolados devido ao colapso da infraestrutura viária. Cerca de 100 residências foram destruídas, outras 3.500 sofreram danos graves e aproximadamente 20 mil tiveram avarias menores, enquanto centenas de milhares de pessoas enfrentaram interrupções no abastecimento de água e milhares ficaram sem energia elétrica durante os dias mais críticos da emergência.

Os prejuízos econômicos já superam US$ 400 milhões, afetando principalmente a agricultura, o comércio e a mineração. A magnitude da devastação levou o governo chileno a decretar estado de catástrofe nas regiões mais atingidas.

UMA RUPTURA QUE VEIO PARA FICAR E VAI PIORAR

A ruptura ocorrida na metade deste mês veio para ficar, uma vez que a atmosfera está em modo finalmente de El Niño em condição que deve perdurar por muitos meses. Os extremos dos últimos dez dias são apenas uma amostra do que está a caminho e virá no que resta de 2026 e ainda se sentirá em parte de 2027, notadamente no primeiro semestre. No Sul do Brasil, o principal efeito será chuva. Volumes excessivos a extremos, como dos últimos dias, se tornarão cada vez mais frequentes.

A primavera e o começo do verão, em particular, podem ter muitos temporais e acumulados de precipitação excessivos a extremos, e mesmo extraordinários em algumas áreas, o que levará a diversos episódios de enchentes e algumas de grande magnitude. O trimestre de agosto a outubro, que compreende o fim do inverno e a primeira metade da primavera, tem tendência de chuva acima a muito acima do normal da climatologia do período.

Não apenas na chuva, o padrão de El Niño se estabelece. Na temperatura, também. Os dias de frio ou muito frios serão cada vez menos frequentes a partir de agora e haverá um número maior de jornadas de tempo quente, apenas não muito numerosos no Sul porque a alta frequência de chuva vai impedir.

Grande parte da América do Sul deve ter um agosto mais quente que a média pela projeção do modelo de clima norte-americano CFS | METSUL

Grande parte da América do Sul terá um fim de julho e agosto com temperatura acima a muito acima da média. No Centro-Oeste e no Sudeste do Brasil, serão muito dias com calor intenso e alguns até com 40ºC ou mais, no entanto haverá mais umidade em alguns momentos, o que combinado com calor deve provocar chuva e tempo severo.

A exceção fica por conta da Patagônia, onde neste fim de julho se registra uma onda de frio por demais intensa com temperaturas de até 25ºC abaixo de zero e neve em enorme quantidade. É exatamente o que pode se esperar sob El Niño, uma vez que durante os episódios do fenômeno neva muito e faz muito frio no extremo Sul do continente, em particular na Patagônia.

(Com METSUL)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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