Alta de custos de combustíveis e fertilizantes pressiona governo a rever mistura de biodiesel

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: reprodução/pensaragro

O governo deve decidir se antecipa a alta da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, em meio à disparada dos custos de combustíveis e fertilizantes provocados pela guerra no Oriente Médio. O tema volta ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em plena colheita de soja e plantio das culturas de inverno, período em que o diesel pesa mais na caixa do produtor.

Hoje, a mistura está em 15% (B15), mas o cronograma da Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024) já anterior B16 a partir de 1º de março, com avanço de um ponto por ano até chegar a B20 em 2030. Entidades do setor cobram previsibilidade e características que o atraso reduz a capacidade de ocorrência do país às oscilações do petróleo e aumenta a dependência do diesel importado.

Intercâmbio entre entidades discute segurança no campo

Na frente política, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) levou à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) um pacote de medidas para conter o impacto da guerra sobre o custo da safra. Entre as propostas estão aumentar a mistura diretamente para 17% (B17) e zerar a alíquota de 8% do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) sobre fertilizantes, numa tentativa de aliviar o custo de importação dos insumos. A CNA também quer reforçar a fiscalização das distribuidoras, com acesso a dados de órgãos reguladores para coibir eventuais abusos de preços no diesel.

O panorama de fundo é um choque simultâneo em energia e fertilizantes. No mercado internacional, o conflito no Oriente Médio elevou o preço futuro da uréia em mais de 30% desde o início das hostilidades, enquanto o petróleo renovou topos recentes, instruindo o custo do diesel. Como o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, a volatilidade no Golfo Pérsico rapidamente se traduz em insumos mais caros para a próxima safra.

Do lado da oferta de biocombustíveis, uma indústria sustentável que tem folga para avançar com segurança. Segundo entidades que reúnem produtores e capacidades de óleos vegetais, a instalação atual permitiria misturas superiores às hoje em vigor, com espaço para elevação gradual até o limite de 25% previsto na lei para os próximos anos, desde que haja validação técnica. Mais de 40 associações ligadas ao agronegócio e à indústria se uniram à carta ao governo defendendo a adoção do B17, argumentando que o aumento da mistura ajudaria a reduzir a necessidade de importação de diesel em um momento de petróleo caro.

Enquanto o CNPE discute o curto prazo, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) avança em estudos para misturas ainda mais robustas no prazo médio. A diretoria da agência aprovou a participação em uma rede de pesquisa que vai testar, em laboratório e campo, gasolina com 35% de etanol (E35) e diesel com 25% de biodiesel (B25), entre outros cenários. O projeto, com apoio dos ministérios de Minas e Energia e da Ciência e Tecnologia, tem orçamento de cerca de R$ 30 milhões até 2027 e deve servir de base técnica para futuras decisões do próprio CNPE.

Sem etanol, o quadro é mais favorável à expansão rápida da oferta. Em nota recente, entidades do setor projetam que a safra 2026/27 deve colocar no mercado quase 4 bilhões de litros adicionais de etanol, volume próximo ao total de gasolina importada pelo Brasil em 2025. Segundo o setor, o biocombustível já responde por mais de 30 bilhões de litros de “gasolina equivalente” por ano e, na maior parte das praças, tem se definido abaixo da paridade de 73% em relação à gasolina, acumulando economia de bilhões de reais para o consumidor desde a popularização dos veículos flex.​

Para o produtor rural, o resultado desse debate em Brasília tem efeito direto na conta da próxima safra. Um eventual B17 tende a ampliar a demanda por óleo vegetal e por grãos usados ​​na produção de biodiesel, ao mesmo tempo em que reduz a exposição do país à importação de diesel em plena janela de plantio e colheita. Já a redução do AFRMM sobre fertilizantes ajudaria a neutralizar parte da alta recente da uréia, hoje pressionada por um conflito distante no mapa, mas cada vez mais presente nos custos da labora brasileira.

(Com

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

Mais Notícias