Alerta de prejuízo: Vai sobrar carne?

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Foto: Arquivo/Acrimat

O setor agropecuário brasileiro está em alerta após o anúncio da nova lista de produtos sujeitos a tarifas de importação nos Estados Unidos, que inclui a carne bovina brasileira. A medida, que segundo especialistas tem motivações protecionistas, pode impactar significativamente as exportações e gerar efeitos negativos em cadeia no Brasil, especialmente entre os produtores rurais.

Em entrevista exclusiva, o diretor-secretário do Sindicato Rural de Cascavel (PR), Paulo Valini, expressou a preocupação do setor. “Nos preocupa bastante. A carne bovina é o principal produto exportado aos EUA e representa cerca de 30% das nossas exportações para aquele mercado. Isso é muito representativo”, afirma Valini.

A nova lista de taxações, que ainda poderá sofrer alterações nos próximos dias, estabelece tarifas mais altas para uma gama de produtos agropecuários brasileiros. Embora muitos itens tenham sido excluídos ou sujeitos a tarifas reduzidas, a carne bovina — principal destaque do agronegócio nacional — foi incluída entre os produtos atingidos.

Impacto direto no campo

Com o encarecimento da carne brasileira nos EUA, parte dessa produção que seria destinada ao mercado externo deverá permanecer no país, aumentando a oferta e pressionando os preços internos. O resultado, segundo Valini, é uma queda nos preços pagos ao produtor. “Já estamos vendo os preços dos animais caírem. Para o produtor, isso é muito ruim e gera instabilidade em toda a cadeia produtiva”, alerta.

Além disso, o dirigente observa que os pecuaristas brasileiros vêm investindo continuamente em melhorias na qualidade da carne, justamente para atender mercados exigentes como o norte-americano. A mudança nas regras, portanto, desestimula esses esforços e pode prejudicar o setor a médio e longo prazo.

Benefício temporário para o consumidor

Apesar das perdas para os produtores, o consumidor brasileiro pode ter algum alívio nos preços da carne bovina em curto prazo. “Provavelmente por um certo período o consumidor vai se beneficiar. Mas, depois, a cadeia vai acabar se ajustando”, explica Valini. Ele acredita que, com o tempo, parte das exportações poderá ser redirecionada para outros mercados, mas reconhece que substituir o mercado norte-americano não será tarefa fácil.

Exportações de carne bovina em números

Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), em 2024 o Brasil exportou cerca de 320 mil toneladas de carne bovina para os Estados Unidos, movimentando aproximadamente US$ 1,6 bilhão. O país é o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China.

O crescimento desse mercado nos últimos anos se deve, em parte, à alta demanda norte-americana por cortes específicos utilizados na indústria de hambúrgueres e alimentos processados, o que gerou uma relação comercial estratégica entre os dois países. A imposição de tarifas, no entanto, pode tornar a carne brasileira menos competitiva, abrindo espaço para produtores locais ou de outros países.

Política comercial e protecionismo

Valini acredita que o movimento norte-americano tem raízes no protecionismo, atendendo a pressões de criadores e produtores locais. “Os Estados Unidos estão utilizando um certo protecionismo. Talvez, se perceberem que a demanda por carne é maior do que a oferta doméstica, possam revisar essas tarifas”, comenta.

Perspectivas

O cenário é de incerteza. Enquanto o governo brasileiro articula possíveis reações diplomáticas e negociações para tentar reverter as medidas, produtores rurais e indústrias do setor já começam a recalcular suas estratégias. A expectativa é de que novos mercados sejam buscados, embora a substituição do mercado americano leve tempo e possa não compensar integralmente as perdas.

Para Valini, o momento exige atenção e articulação do setor produtivo. “Infelizmente, o produtor vai acabar arcando com parte desse prejuízo. Esperamos que a situação se reverta ou que novas oportunidades surjam no horizonte”, conclui.


Com informações da ABIEC e dados do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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