Leite em crise: Gestão pode definir sobrevivência das propriedades leiteiras

A adoção de indicadores técnicos e econômicos deixou de ser apenas uma ferramenta de gestão para se tornar um fator determinante para a competitividade da pecuária leiteira. Levantamento realizado pelo gerente técnico do Serviço de Inteligência em Agronegócios (SIA), Marcelo Irala, mostra que as propriedades que monitoram de forma sistemática seus índices de desempenho conseguiram enfrentar com maior eficiência o período de queda dos preços do leite registrado entre meados de 2025 e abril de 2026.
Um dos principais parâmetros avaliados é o Custo Operacional Efetivo (COE), que reúne todos os desembolsos diretos realizados ao longo do ciclo produtivo. “O percentual recomendado é de até 70% da receita bruta. No entanto, durante o período analisado, muitas propriedades ultrapassaram 85%, comprometendo a capacidade de pagar custos fixos, gerar caixa e realizar investimentos. As fazendas mais eficientes, por outro lado, mantiveram o indicador dentro da faixa considerada ideal”, observa.
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Outro dado que merece atenção, segundo Irala, é o peso das despesas com concentrado na receita bruta. Como a alimentação representa, em geral, o maior custo da produção de leite, qualquer desequilíbrio afeta diretamente a rentabilidade. “Não foi incomum encontrar propriedades destinando mais de 45% da receita apenas para esse item”, exemplifica. Já nas propriedades de melhor desempenho, esse percentual permaneceu abaixo de 40%, reflexo de um manejo nutricional mais eficiente. O levantamento também destaca a importância da RMCA (Renda Menos Custo Alimentar), indicador que mede a eficiência econômica da alimentação das vacas em lactação. O recomendado é que esse índice não ultrapasse 50% da receita. “Durante a crise de preços, entretanto, diversas propriedades chegaram a 60%, enquanto as mais eficientes conseguiram permanecer próximas da meta por meio de ajustes no rebanho e no planejamento alimentar”, ressalta.
Além dos indicadores econômicos, Irala destaca ainda a necessidade de acompanhar índices zootécnicos, como a produção de leite por vaca e os Dias em Lactação (DEL). O primeiro fornece informações para adequar a dieta e melhorar a eficiência produtiva. Já o DEL permite avaliar a eficiência reprodutiva do rebanho, identificar seu estágio produtivo e antecipar ações de manejo. Outro indicador considerado estratégico é a margem líquida, que mede o retorno financeiro da atividade. “Esse índice orienta decisões sobre investimentos, expansão e continuidade do negócio, devendo permanecer acima do custo de oportunidade.
O percentual de vacas em lactação em relação ao rebanho total também influencia diretamente a saúde financeira das propriedades”, destaca. Embora existam animais em recria, cria e período seco, são as vacas em produção que sustentam economicamente o sistema. O ideal é que representem entre 50% e 60% do rebanho, mas muitas propriedades ainda operam com índices inferiores a 35%, comprometendo a rentabilidade.
Para Irala, a pecuária leiteira caminha para um modelo em que a tomada de decisões será cada vez mais baseada em dados. “O produtor do futuro terá esses indicadores como metas permanentes de gestão. Quem acompanhar esses números e agir rapidamente diante das adversidades terá mais condições de preservar a rentabilidade e garantir a sustentabilidade do negócio”, afirma.
(Com Artur Chagas/AgroEffective)











