Agro paranaense cobra prioridades dos futuros governantes

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Faep

Sistema FAEP reforça pautas emergenciais que o campo precisa ver atendidas para continuar desenvolvendo a economia nos âmbitos estadual e nacional

Outubro é um mês decisivo para o futuro do setor agropecuário do Paraná e do Brasil. Isso porque os eleitores decidem quem vai governar o Estado e o país a partir de janeiro de 2027. Neste contexto, o campo tem urgência por soluções para problemas recorrentes no meio rural como juros altos, endividamento crescente, falta de seguro rural, prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos e uma infraestrutura que não acompanha a produção.

Por isso, nos últimos meses, o Sistema FAEP documentou essas reivindicações e as entregou aos futuros governantes. O Plano Diretor do Agronegócio Paranaense 2027/30, com mais de 360 propostas construídas com a participação dos 163 sindicatos rurais, foi entregue a candidatos ao governo do Paraná. No âmbito nacional, a entidade desenvolveu o documento “Propostas ao Candidato a Presidente da República 2026”, com 15 prioridades técnicas e pautas jurídicas em sete áreas. O material chegou às mãos do candidato Ronaldo Caiado em visita à sede da entidade, em Curitiba, no dia 15 de julho.

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“Quem assumir em janeiro vai encontrar um setor que produz, gera emprego e sustenta a economia dos municípios, Estados e do país. Porém, hoje o agro enfrenta dívida sem saída, risco sem proteção e infraestrutura precária. Esse cenário precisa mudar urgentemente, por meio de políticas públicas eficientes e de acordo com a realidade do campo”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “Entregamos propostas construídas por quem vive essa realidade todos os dias. Agora é preciso que saiam do papel. A partir de janeiro vamos cobrar os novos governantes.”

Dentre as centenas de propostas, nos âmbitos estadual e federal, algumas são prioritárias, por conta da situação preocupante no meio rural. “Esses documentos são um retrato fiel do que o setor agropecuário paranaense e nacional precisa para os próximos anos”, afirma Meneguette.

Segurança rural: um reforço necessário

Apesar do trabalho da Patrulha Rural Comunitária 4.0, da Polícia Militar (PM), com resultados como a recuperação de gado roubado e de veículos furtados, o cadastro de propriedades e a queda nos índices de criminalidade no campo, são necessárias mais ações para reprimir a atuação de criminosos no campo.

O Sistema FAEP pede que vire lei a instituição da Patrulha Rural nos batalhões da corporação, com mais efetivo e internet via satélite nas viaturas. A entidade também propõe que sejam integrados ao projeto Patrulha Rural Comunitária tanto o Batalhão de Polícia Rodoviária (na orientação e educação para o trânsito de máquinas agrícolas em rodovias) quanto o Corpo de Bombeiros, na prevenção e no combate a incêndios nas áreas rurais.

“O trabalho da Patrulha Rural é essencial para manter a segurança no meio rural do Paraná, e as estatísticas comprovam. Por isso, ela precisa deixar de ser um programa e virar lei, com mais efetivo e investimento, a começar pela conectividade”, comenta o presidente do Sistema FAEP. A entidade aponta ainda a necessidade de criação de delegacias regionais especializadas em crimes na zona rural e conselhos de segurança nos municípios que ainda não têm.

Energia: luz não chega e conta sobe

Os eventos climáticos extremos dos últimos meses deixaram centenas de milhares de unidades consumidoras sem energia no Paraná, segundo a própria Copel. Em diversos municípios, produtores ficaram no escuro e perderam a produção de leite por falta de refrigeração, enquanto outros tiveram que usar geradores para garantir a alimentação dos animais. A pecuarista Simone de Paula, de Rondon, passou quase cinco dias sem luz. Já o piscicultor Claus Lemmertz, de Marechal Cândido Rondon, precisou ligar dois geradores para oxigenar os tanques, um gasto adicional de R$ 7,8 mil por dia em diesel.

Mesmo assim, em junho, a tarifa da Copel subiu 20,51%, autorizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), acima da inflação de 2025, de 4,26%. No mesmo ano, a companhia lucrou R$ 2,66 bilhões. Por conta deste cenário caótico, o Sistema FAEP levou o problema a audiências públicas da Aneel e do Senado e, em julho, acionou o Ministério Público do Paraná e o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU).

“Essa situação de inoperância e descaso se arrasta há muito tempo. É inadmissível a falta de ações efetivas por parte da Copel”, afirma Meneguette. Em cadeias como piscicultura, avicultura, suinocultura e pecuária de leite, lembra o dirigente, poucas horas sem energia já significam morte de animais, perda de produção e prejuízos financeiros para o produtor.

Por isso, o Plano Diretor aponta a necessidade de um Plano Estadual de Modernização da Infraestrutura Elétrica Rural e mais recursos para o Programa Paraná Energia Rural Renovável (RenovaPR), que apoia a geração distribuída de energia a partir de fontes renováveis, inclusive com armazenamento. A entidade também pede um convênio entre Aneel e Agência Reguladora do Paraná (Agepar) para descentralizar a fiscalização, além de um planejamento energético regional.

Estradas rurais: o primeiro elo da logística

É pela estrada rural que sai quase tudo o que o Paraná produz. Porém, a situação precária hoje encarece o chamado “Custo Brasil”, fazendo com que o custo de produção aumente para o produtor e o alimento chegue mais caro à população. De acordo com estudo do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (ESALQ-LOG), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em parceria com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), as deficiências das estradas vicinais custam ao país R$ 6,4 bilhões por ano em despesas operacionais extras.

O Paraná tem uma malha de 170 mil quilômetros de estradas vicinais — a quarta maior do país —, dos quais 16,9 mil quilômetros são terciários (9,94% da extensão total). Pela relevância produtiva, 23 das 39 microrregiões do Estado estão entre as prioritárias para investimento nessas vias. Ainda, a região de Guarapuava, com cinco grupos de alta produção, lidera o ranking estadual e está entre as dez primeiras do país, segundo o economista e doutor em Economia Aplicada pela ESALQ/USP Everton Lima Costa, que integrou a equipe do estudo.

Atualmente, diversos gargalos oneram e dificultam o escoamento da produção: drenagem deficiente, falta de cascalhamento, estradas com capacidade limitada, pontes de madeira sem manutenção e prefeituras sem equipamentos suficientes. “O apoio aos municípios pode ser intensificado para que isso seja um problema menor na vida das comunidades rurais”, defende o pesquisador.

No total, o estudo estima que adequar a malha vicinal prioritária do Estado (terciárias e não classificadas) em situação precária custaria R$ 1,9 bilhão por ano. “As estradas vicinais são os meios principais de deslocamento da produção, mas, também, têm relevância social do ponto de vista do bem-estar das comunidades que moram no campo, da acessibilidade e da garantia de direitos como o acesso à educação e à saúde”, destaca Costa.

Diante desse cenário, o Sistema FAEP propõe ao próximo governo um Programa Estadual Permanente de Estradas Rurais, com recursos contínuos e critérios técnicos de priorização, além de um fundo de apoio aos municípios, a modernização das pontes rurais e planos municipais de logística rural.

Plano Safra: o agro precisa de previsibilidade

“O crédito é o combustível para sair a safra”, diz Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV (FGV Agro). Mas, segundo o especialista, sem gestão de risco (seguro rural, proteção de preços, zoneamento agrícola), o produtor fica exposto a perdas que se transformam em dívida. Os números ajudam a dimensionar o problema: a safra 2025/26 encerrou, em junho, com R$ 344,9 bilhões efetivamente desembolsados em crédito rural no país, de acordo com o Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) do Banco Central, desconsideradas as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) lastreadas em Cédulas de Produto Rural (CPRs). O volume ficou 10,1% abaixo ao da safra anterior.

Desse total, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) respondeu por R$ 68,7 bilhões, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) por R$ 62,2 bilhões, e os demais produtores, por R$ 214 bilhões. O ciclo terminou ainda sob juros elevados, com a Selic em 14,25% ao ano.

Dados do Banco Central relativos a julho mostram ainda que a inadimplência no crédito rural de pessoas físicas chegou a 15,53% nas operações a taxas de mercado, contra 3,67% nas operações a taxas reguladas.

Neste contexto, o Sistema FAEP pede ao próximo governo federal que trate o Plano Safra como política de Estado, com previsibilidade plurianual e recursos para equalização, mais acesso e integração entre crédito, seguro e gestão de risco.

Inclusive, como forma de contribuir, o Sistema FAEP, junto dos sindicatos rurais e outras entidades do setor agropecuário paranaense, todos os anos, elabora um documento com as propostas, que é enviado ao governo federal. A iniciativa reforça o protagonismo do Paraná na formulação do Plano Safra e evidencia a articulação do setor produtivo paranaense junto aos Poderes Executivo e Legislativo na construção das diretrizes da política agrícola.

Endividamento: renegociação não sai do papel

A Medida Provisória 1.376/2026 criou o programa de renegociação, com adesão até 12 de novembro. Porém, na prática, quase nada avançou. Levantamento do Sistema FAEP com sindicatos rurais de Guarapuava, São Mateus do Sul, Maringá e Guamiranga mostra poucos enquadramentos, novas garantias exigidas e bancos oferecendo juros de 19% quando a dívida original era de 14% a 16%. Em Guarapuava, apenas um produtor da agência local se enquadrou; em São Mateus do Sul, cerca de 12% das propostas foram aceitas.

“Entre todos os clientes e produtores que chegaram até mim, apenas um conseguiu efetivamente se enquadrar nessa linha de composição. Foi uma exceção”, relata a ad vogada Tatiana Gaertner, especialista em Direito do Agronegócio.

Diante da insuficiência das linhas rurais com recursos controlados ou subsidiados, ela conta que muitos produtores recorreram a crédito livre ou comercial, com taxas mais altas e prazos incompatíveis com o ciclo produtivo. “Em vários casos, a dívida anterior foi incorporada a uma nova operação, mais cara, sem que houvesse recuperação da capacidade de pagamento. O resultado foi o crescimento progressivo do passivo.”

Para Tatiana, a MP até pode ajudar em situações específicas, mas não resolve a crise estrutural. “Os critérios de enquadramento são restritivos. Além disso, algumas instituições exigem alienação fiduciária de imóveis e outras garantias que muitos produtores não conseguem oferecer”, destaca.

Diante desse quadro, o Sistema FAEP defende que o próximo governo federal vá além de programas extraordinários e crie uma política permanente de reestruturação financeira, com critérios técnicos, transparência e previsibilidade. “O descaso com a situação dos produtores rurais ultrapassou os limites do aceitável. São necessárias medidas práticas e eficazes, de forma urgente”, cobra Meneguette.

Seguro rural: prevenir custa menos que socorrer

Para Loyola, o modelo de política agrícola “chegou ao seu esgotamento”. “O produtor rural está na UTI”, resume. Como sintomas, cita a inadimplência acima de 8%, os leilões de propriedades e as recuperações judiciais no meio rural. E aponta outro agravante: problemas climáticos que ocorriam a cada cinco ou sete anos hoje se repetem a cada três, atingindo vários Estados ao mesmo tempo.

Enquanto o risco cresce, a proteção encolhe. A área segurada no país caiu mais de 75% desde 2021 e, no Paraná, as apólices passaram de 82,19 mil para 9,24 mil no mesmo período. O orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) caiu de R$ 1 bilhão para cerca de R$ 473 milhões em 2026. Na proposta para 2027, do R$ 1,2 bilhão previsto, só R$ 318,5 milhões (27%) têm fonte livre garantida.

As contas do FGV Agro indicam que um valor equivalente ao custo anual estimado pelo governo de R$ 3,6 bilhões da equalização de juros da renegociação, se aplicado na subvenção ao seguro rural, poderia proteger 20,5 milhões de hectares e R$ 112 bilhões em capital segurado. “Não adianta dar crédito se não tem proteção”, resume Loyola.

O especialista defende, ao menos, 20% da área agrícola segurada em quatro anos e lembra que os Estados Unidos aplicam cerca de cem vezes mais que o Brasil. “O governo federal deveria olhar para a experiência internacional e entender o que os países mais maduros em termos de política agrícola fizeram”, comenta.

Uma possível resposta acaba de ser sancionada pelo presidente da República. O PL 2.951/2024, agora Lei 15.526/2026, prevê que a subvenção ao seguro rural terá execução obrigatória, restrita ao montante proposto no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). A nova lei também estabelece condições de crédito mais favoráveis para produtores que contratem seguro, fixa prazos para regulação e pagamento dos sinistros e define bases para a implementação do fundo de cobertura de catástrofes. Enquanto aguarda a efetiva execução do que foi aprova do, o Sistema FAEP repete o alerta ao futuro governante: mais do que programas extraordinários de renegociação, o país precisa de uma política permanente de reestruturação financeira, com critérios técnicos, transparência e previsibilidade.

“O produtor não pode depender de socorro emergencial depois que o prejuízo já aconteceu. Precisamos de um instrumento de proteção com regras claras e indenização ágil e garantida”, afirma Meneguette. “O Brasil precisa estabelecer uma política permanente de gestão de riscos, com orçamento previsível, ampliação da cobertura e integração entre seguro rural, crédito e programas de renda para os produtores”, complementa.

 

(Com Assessoria de Imprensa/FAEP)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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