MERCADO

Reino Unido mantém portas abertas à carne brasileira

O Reino Unido decidiu não seguir o bloqueio da União Europeia às exportações brasileiras de produtos de origem animal e manterá as compras de carne, frango, ovos e mel do Brasil enquanto conduz uma avaliação técnica própria sobre os sistemas de controle sanitário e de rastreabilidade do país.
Em 2025, o Brasil exportou 29,98 mil toneladas de carne bovina para o Reino Unido, 7,3% a mais do que em 2024. A receita teve aumento de 33%, somando R$ 963,66 milhões. No primeiro semestre deste ano, os embarques para lá somaram 12,47 mil toneladas, queda de 2,9% em comparação ao volume de igual período de 2025. Ainda assim, o preço médio pago pela proteína brasileira pelos britânicos teve incremento de 24,2% nesses seis primeiros meses, de acordo com dados da Comex/Stat.
O anúncio, feito após reuniões entre o governo britânico e representantes do setor de carnes, representa um alívio momentâneo para o agronegócio brasileiro em um cenário de crescente pressão comercial externa, mas deixa claro que a porta permanece aberta apenas enquanto durar a paciência de Londres com a burocracia e a fiscalização brasileiras.
A decisão britânica contraria o movimento da União Europeia, que anunciou na semana passada a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal a partir de 3 de setembro. O bloco justificou a medida pela falta de comprovação de que o país atende às exigências de controle do uso de antimicrobianos na produção pecuária, uma regra que proíbe substâncias como virginiamicina, avoparcina, tilosina, espiramicina, avilamicina e bacitracina como promotores de crescimento animal. O veto europeu, que atinge carne bovina, carne de frango, peixe, ovos e mel, pode representar uma perda de até R$ 10,4 bilhões por ano às exportações brasileiras, segundo estimativas do setor.
O ponto central da divergência com a União Europeia não é a existência de contaminação, mas a capacidade do Brasil de comprovar fiscalização, rastreabilidade e conformidade sanitária. Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura (Mapa) publicou portarias proibindo parte dos medicamentos questionados, mas abriu uma janela de 180 dias para que empresas esgotem estoques, extrapolando a data-limite de setembro imposta pela UE.
Um parecer técnico do próprio Mapa, datado de março, afirmou que os controles brasileiros eram “insuficientes” para atender à legislação europeia, uma vez que o sistema depende de autodeclaração dos produtores. Para voltar à lista de países autorizados, o Brasil precisará comprovar que cumpre integralmente as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados, o que exige rastreabilidade detalhada da cadeia produtiva e custos adicionais para produtores e frigoríficos.

Isan Rezende, presidente do IA

O alívio britânico, porém, não pode mascarar a dimensão da crise que se abate sobre as exportações de carne bovina brasileira, lembrou o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende. Ele considerou a decisão britânica positiva, mas advertiu que ela não pode ser lida como uma solução estrutural.

“O Reino Unido deixou claro que vai fazer o dever de casa dele, avaliar nossos controles e só então decidir. Isso é bom, porque mostra que o diálogo técnico ainda funciona, mas não podemos confundir uma trégua com uma vitória. O Brasil está há meses sabendo que a UE questionava o uso de antimicrobianos, e o que a gente viu foi um governo publicando portarias em cima da hora, com prazos de transição que não respeitam o calendário comercial do bloco. O produtor rural não pode ficar refém de decisões externas e pontuais, de um governo britânico que hoje decide uma coisa e amanhã pode mudar de ideia, ou de uma União Europeia que já bateu o martelo. Precisamos de regras claras, estáveis e que sejam cumpridas de verdade, não apenas no papel”, comentou Isan.
Rezende ressaltou que o agronegócio brasileiro tem condições de atender às exigências dos mercados mais exigentes, mas falta coordenação entre os órgãos públicos e o setor produtivo. “Ninguém aqui está pedindo para abrir a porteira e deixar o produtor fazer o que quiser. O que a gente cobra é pragmatismo. O Mapa tem bons técnicos, o setor privado investe em rastreabilidade, mas falta uma política sanitária que olhe para o mercado e não apenas para o curto prazo. A gente não pode depender de uma avaliação favorável do Reino Unido para manter as exportações. O Brasil precisa ter um sistema tão robusto que, seja lá quem for que sentar para negociar, a resposta seja a mesma: o produto está dentro da norma, comprovação em mãos, sem autodeclaração, sem gambiarra”, disse.
O dirigente do IA concluiu cobrando do governo federal uma postura mais proativa e menos reativa. “O que a gente viu nos últimos meses foi o governo correndo atrás do prejuízo. Tarifa dos americanos, bloqueio da europeia, agora uma avaliação britânica. A cada crise, uma portaria de emergência, uma reunião, um acordo de última hora. Isso não é gestão. O produtor rural precisa de previsibilidade para investir, para fazer o manejo correto, para escolher os insumos que o mercado aceita. O governo precisa sentar com o setor, definir um cronograma realista de adequação sanitária e colocar recursos onde a conta chega: na fiscalização, na rastreabilidade, na capacitação do produtor. Não adianta exportar para 170 países se a gente está sempre a um passo de perder os que pagam melhor”, completou.
(Com Pensar Agro)
Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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