Pecuária brasileira terá redução na intensidade das emissões de até 92,6%

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Foto: Assessoria Abiec

Em um momento crucial de transição global para economias de baixo carbono, a delegação brasileira apresentou hoje, na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, uma resposta contundente baseada em ciência para os desafios climáticos e de segurança alimentar. Durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (COAG), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Missão do Brasil em Roma — representação diplomática coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) —, lançou internacionalmente o estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

Diante de delegações estrangeiras e cientistas, o relatório demonstrou como o país consegue responder à crescente demanda global por alimentos e, ao mesmo tempo, mitigar o impacto ambiental por meio da tecnologia tropical.

Inusitado: Vaca cai de telhado de casa

A abertura das discussões contou com a participação do Diretor de Produção e Sanidade Animal e Diretor-Geral Assistente da FAO, Thanawat Tiensin, que reforçou a necessidade de governança e união multissetorial. “Quando falamos de produção pecuária sustentável, cada país precisa encontrar seu próprio caminho. A Agenda 2030 e seus objetivos não são uma opção. O ponto central é a necessidade de trabalhar em conjunto com agricultores, produtores, setor privado, academia e instituições de pesquisa. A transformação que buscamos precisa ser construída de forma coletiva”, declarou Tiensin.

Para o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o debate na agência da ONU consolida o papel estratégico do país no abastecimento e na sustentabilidade. “Viemos à FAO mostrar que a pecuária brasileira tem condições de avançar de forma consistente na agenda climática sem abrir mão da produtividade. O papel da ApexBrasil, em forte parceria com a nossa representação diplomática em Roma, é trazer o debate para a realidade dos números. Provamos que o Brasil é um fornecedor confiável, essencial para o desenvolvimento econômico e para a segurança alimentar mundial”, destacou Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil.

Müller também lembrou a mecânica prática que diferencia o modelo brasileiro no exterior, focando na Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). “O que o Brasil faz de diferente é que, na mesma área da pastagem pro boi, fazemos uma rotação com lavoura e floresta na mesma propriedade. Isso só o Brasil tem. Já estamos com cerca de 17 milhões de hectares com algum tipo de produção integrada, e o grande benefício é que esse sistema otimiza a terra e reduz a pegada de carbono de forma definitiva.”

O Cenário Global e o Paradoxo Brasileiro: Crescimento com Preservação

O setor pecuário enfrenta uma encruzilhada global. Enquanto a demanda por proteína animal aumenta, os três blocos que controlam 70% do rebanho global registram quedas históricas: o Mercosul opera em seu nível mínimo de 6 anos, a América do Norte enfrenta o menor rebanho em 70 anos e a União Europeia, o menor em 30 anos.

Na contramão da retração externa, o Brasil se consolidou com o maior rebanho comercial do planeta (192,6 milhões de cabeças em 2024), mostrando que o crescimento produtivo coexiste com a preservação. O país utiliza apenas 30,2% de seu território para a agropecuária, mantendo 66,3% da vegetação nativa preservada — sendo que 33,2% está resguardada por lei dentro das propriedades rurais privadas. Esta atuação conjunta entre a produção eficiente e a diplomacia ambiental tem sido um pilar defendido pelo MRE em fóruns multilaterais para fortalecer a cooperação internacional.

“Efeito poupa-terra” e a modelagem científica

O desacoplamento entre área e produção na pecuária de corte brasileira já é um histórico consolidado. Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina disparou mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11% (reduzindo de 181 para 160 milhões de hectares). Esse salto gerou o chamado “efeito poupa-terra”, que poupou 397 milhões de hectares — área que teria sido necessária se o país mantivesse os mesmos índices de produtividade de 1990.

A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, detalhou os dados técnicos do estudo que traduzem esse ganho de eficiência em metas climáticas:

“O primeiro grande resultado do modelo matemático foi mostrar que as tendências que o setor já executa reduzem em até 60% as emissões absolutas até 2050. Quando olhamos para a intensidade de carbono, a redução chega a 80% no cenário de referência, baixando de 80 kg para 16 kg de CO2 equivalente por quilo de carne. Nos cenários mais ambiciosos com o Plano ABC+, a intensidade cai 92,6%, chegando a apenas 5 kg. Isso acontece porque o carbono fixado no solo pela ILPF e pela recuperação de pastagens atua diretamente na remoção dessas emissões.”

O estudo comprova que no cenário mais arrojado de mitigação, o Brasil conseguirá estabilizar sua produção em patamares elevados (18,2 milhões de toneladas de carcaça em 2050) reduzindo a área necessária de pastagens em mais 35%, amparado pelo aumento de 31% no peso médio da carcaça do animal abatido (que saltará de 211 kg para 277 kg).

Validação Comercial e Mercados Globais

Para o setor exportador, a apresentação do estudo dentro do Subcomitê de Pecuária do COAG — órgão que orienta as políticas agrícolas globais da ONU — funciona como um aval de credibilidade que embasa o produto brasileiro frente às exigências do mercado externo.

Fernando Zelner, Diretor de Sustentabilidade da ABIEC, resumiu o valor estratégico do embasamento científico para a reputação internacional do agronegócio: “Isso é fundamental para a exportação e para a gente trazer os dados duros, com ciência bem fundamentada, para mostrar para o mundo por que a nossa carne é sustentável e por que que o nosso produto é confiável e merece estar em todas as prateleiras dos supermercados do mundo.”

Com os dados apresentados na ONU, o Brasil demonstra que o investimento em biotecnologia zootécnica, aditivos alimentares e a recuperação de pastagens degradadas são os vetores reais para conciliar o combate à fome e a resiliência climática.

(Com Assessoria ABIEC)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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