O Brasil que não pode ser taxado

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Embarque de contêineres no Porto de Santos. Imagem: MSN

Quando o USTR, Escritório do Representante Comercial dos EUA, propôs em 1º de junho de 2026 uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a carne bovina foi explicitamente excluída da lista. A decisão, publicada no Federal Register e baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, lista entre as justificativas práticas comerciais supostamente “irrazoáveis” do Brasil. Mas a carne não entrou e os números explicam por quê.

Sem acordo de livre comércio com os EUA, o Brasil exporta carne bovina para o mercado americano sob a cota TRQ, cota tarifária, da categoria “Other Countries”, compartilhada com exportadores menores como Japão, Irlanda e Lituânia. Em 2026, essa cota foi reduzida de 65.005 para 52.005 toneladas pelo USTR, conforme publicação no Federal Register de 31 de dezembro de 2025: 13.000 toneladas foram transferidas para o Reino Unido em troca de acesso recíproco da carne americana ao mercado britânico. Ou seja, o Brasil perdeu espaço dentro de uma cota que já era pequena.

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O fato é que o mercado respondeu com velocidade que os próprios analistas americanos definiram como sem precedente. Segundo o relatório do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, o CBP, citado pelo USDA/ERS no Livestock, Dairy and Poultry Outlook de janeiro de 2026, em 5 de janeiro a cota “Other Countries” já estava 91% preenchida. Em 6 de janeiro, o Brasil esgotou integralmente sua cota tarifária em seis dias de ano comercial.

Em 2025, o mesmo ponto havia sido atingido em 17 de janeiro. Em 2024, em março. Em 2023, em maio. Para comparação: a Austrália, com cota bilateral de 378.214 toneladas, sete vezes maior, havia utilizado menos de 1% do seu volume no mesmo período.

A partir de 7 de janeiro, toda a carne bovina brasileira exportada para os EUA passou a ser tributada pela tarifa fora de cota de 26,4%. E o mercado americano absorveu a tarifa sem reduzir a demanda. No acumulado até a semana encerrada neste 16 de maio, o Brasil havia exportado 159.729 toneladas de carne bovina para os EUA, alta de 12% em relação ao mesmo período de 2025, conforme o relatório semanal do USDA/AMS, serviço de mercados agrícolas de 22 de maio.

No primeiro trimestre de 2026, o Brasil embarcou US$ 795 milhões em carne bovina para os EUA, alta de 21% em relação ao mesmo período do ano anterior. As importações totais americanas de carne bovina no primeiro trimestre chegaram a 562.000 toneladas métricas, avaliadas em quase US$ 4,5 bilhões, alta de 18% sobre o mesmo período de 2025 e 122% acima do registrado cinco anos antes, conforme a American Farm Bureau Federation, Federação Americana de Fazendeiros, com base em dados do USDA.

Diante dos preços no varejo em níveis recordes, o governo Trump estuda suspender por 200 dias os limites quantitativos do sistema TRQ, o que permitiria volumes ilimitados de carne importada com tarifas reduzidas, segundo a American Farm Bureau Federation. A medida beneficiaria principalmente parceiros com cotas próprias: Austrália, Nova Zelândia, Uruguai e Argentina, cuja cota foi ampliada de 20.000 para 100.000 toneladas por ordem de Trump em fevereiro de 2026. O Brasil, sem cota própria nem acordo de livre comércio, continuaria competindo no espaço restante e pagando 26,4% acima da cota, como já faz desde 6 de janeiro.

O fato é que o preço de varejo composto da carne bovina vem registrando novos recordes histórico desde junho de 2025, segundo o USDA/ERS. A inflação geral de alimentos nos EUA rodou 3,2% em doze meses. A carne bovina subiu 14,8% em abril de 2026 em relação ao mesmo mês do ano anterior. Para o restante de 2026, a projeção da mesma agência é de mais 12,1%.

Em 2025, pela primeira vez na história, o Brasil superou os EUA na produção global de carne bovina, conforme o USDA. Para 2026, a projeção americana é de 12,370 milhões de toneladas brasileiras contra 11,741 milhões americanas. O país que por décadas exportou modelo agora compra carne do país que aprendeu com ele e paga tarifa extra para garantir o abastecimento.

(Com CNN/MSN)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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