O Brasil que não pode ser taxado

Quando o USTR, Escritório do Representante Comercial dos EUA, propôs em 1º de junho de 2026 uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a carne bovina foi explicitamente excluída da lista. A decisão, publicada no Federal Register e baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, lista entre as justificativas práticas comerciais supostamente “irrazoáveis” do Brasil. Mas a carne não entrou e os números explicam por quê.
Sem acordo de livre comércio com os EUA, o Brasil exporta carne bovina para o mercado americano sob a cota TRQ, cota tarifária, da categoria “Other Countries”, compartilhada com exportadores menores como Japão, Irlanda e Lituânia. Em 2026, essa cota foi reduzida de 65.005 para 52.005 toneladas pelo USTR, conforme publicação no Federal Register de 31 de dezembro de 2025: 13.000 toneladas foram transferidas para o Reino Unido em troca de acesso recíproco da carne americana ao mercado britânico. Ou seja, o Brasil perdeu espaço dentro de uma cota que já era pequena.
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Em 2025, o mesmo ponto havia sido atingido em 17 de janeiro. Em 2024, em março. Em 2023, em maio. Para comparação: a Austrália, com cota bilateral de 378.214 toneladas, sete vezes maior, havia utilizado menos de 1% do seu volume no mesmo período.
A partir de 7 de janeiro, toda a carne bovina brasileira exportada para os EUA passou a ser tributada pela tarifa fora de cota de 26,4%. E o mercado americano absorveu a tarifa sem reduzir a demanda. No acumulado até a semana encerrada neste 16 de maio, o Brasil havia exportado 159.729 toneladas de carne bovina para os EUA, alta de 12% em relação ao mesmo período de 2025, conforme o relatório semanal do USDA/AMS, serviço de mercados agrícolas de 22 de maio.
No primeiro trimestre de 2026, o Brasil embarcou US$ 795 milhões em carne bovina para os EUA, alta de 21% em relação ao mesmo período do ano anterior. As importações totais americanas de carne bovina no primeiro trimestre chegaram a 562.000 toneladas métricas, avaliadas em quase US$ 4,5 bilhões, alta de 18% sobre o mesmo período de 2025 e 122% acima do registrado cinco anos antes, conforme a American Farm Bureau Federation, Federação Americana de Fazendeiros, com base em dados do USDA.
Diante dos preços no varejo em níveis recordes, o governo Trump estuda suspender por 200 dias os limites quantitativos do sistema TRQ, o que permitiria volumes ilimitados de carne importada com tarifas reduzidas, segundo a American Farm Bureau Federation. A medida beneficiaria principalmente parceiros com cotas próprias: Austrália, Nova Zelândia, Uruguai e Argentina, cuja cota foi ampliada de 20.000 para 100.000 toneladas por ordem de Trump em fevereiro de 2026. O Brasil, sem cota própria nem acordo de livre comércio, continuaria competindo no espaço restante e pagando 26,4% acima da cota, como já faz desde 6 de janeiro.
O fato é que o preço de varejo composto da carne bovina vem registrando novos recordes histórico desde junho de 2025, segundo o USDA/ERS. A inflação geral de alimentos nos EUA rodou 3,2% em doze meses. A carne bovina subiu 14,8% em abril de 2026 em relação ao mesmo mês do ano anterior. Para o restante de 2026, a projeção da mesma agência é de mais 12,1%.
Em 2025, pela primeira vez na história, o Brasil superou os EUA na produção global de carne bovina, conforme o USDA. Para 2026, a projeção americana é de 12,370 milhões de toneladas brasileiras contra 11,741 milhões americanas. O país que por décadas exportou modelo agora compra carne do país que aprendeu com ele e paga tarifa extra para garantir o abastecimento.
(Com CNN/MSN)











