Imagem: Meteored Brasil
O milho segunda safra entrou no centro do debate sobre clima, uso da terra e bioenergia no Brasil. Um estudo nacional publicado na npj Sustainable Agriculture mapeou 17,1 milhões de hectares cultivados em 2023 e mostrou que a expansão recente avançou menos sobre vegetação natural, especialmente na última década.
A cultura já sustenta grande parte da produção brasileira de grãos e abastece uma fatia crescente do etanol de milho. Em um país onde agricultura, energia e mudança de uso da terra pesam nas emissões, entender onde o milho avança virou questão estratégica no campo para produtores, indústria e políticas climáticas.
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O mapa do estudo mostra um cinturão bem definido no Centro-Oeste, com forte presença em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Mato Grosso sozinho respondeu por cerca de 44% da área nacional mapeada em 2023, enquanto Mato Grosso do Sul e Goiás formam outros polos importantes. É nessa faixa que o calendário agrícola permite, em muitos municípios, colher a soja e semear o milho ainda dentro da janela útil.
A expansão recente do milho segunda safra ocorreu principalmente sobre áreas já abertas, como pastagens e lavouras consolidadas, com menor avanço sobre vegetação natural.
A leitura espacial também revela a força do Cerrado, que concentrou 53,9% da área nacional de milho segunda safra. A Amazônia aparece com 28,4% e a Mata Atlântica com 17,6%. No mapa, a cultura se espalha como uma faixa agrícola do centro do país em direção ao oeste e ao sul, acompanhando áreas consolidadas de soja. Essa distribuição mostra que a discussão não é apenas produtiva: ela passa por biomas sensíveis, logística de grãos e pressão por rastreabilidade.
O ponto mais forte do levantamento é a mudança no perfil da expansão. Entre 2003 e 2023, cerca de 13% da área atual de milho segunda safra estava associada à conversão de vegetação natural. No recorte mais recente, de 2013 a 2023, essa participação caiu para 3,6%, indicando menor pressão direta sobre áreas naturais.
Práticas de manejo do solo, como maior cobertura vegetal e sistemas de dupla safra, ajudam a compensar parte das emissões associadas à mudança de uso da terra.
A maior parte da expansão recente ocorreu sobre pastagens, lavouras anuais já existentes e áreas de soja em cultivo único, onde o milho passou a entrar como segunda cultura no mesmo ano agrícola.
Na prática, isso significa mais produção na mesma área, embora o resultado dependa de controle do desmatamento, fiscalização territorial e bom manejo do solo.
Pontos de atenção para o agro:
O estudo estimou emissões líquidas por mudança direta de uso da terra entre 0,6 e 0,9 tonelada de CO₂ por hectare ao ano para o milho segunda safra. Ao mesmo tempo, práticas de manejo do solo compensaram parte desse saldo, com acúmulo estimado entre 0,1 e 0,2 tonelada de CO₂ por hectare ao ano.
A compensação não zera o impacto, mas mostra que o manejo pode mudar o balanço final, sobretudo em áreas bem conduzidas e monitoradas.
Esse ganho está ligado à sucessão soja–milho, ao maior retorno de palhada ao solo e a práticas como plantio direto. Para o etanol, o balanço combinado ficou entre 2,3 e 5,3 gramas de CO₂ por megajoule no período de 2003 a 2023, caindo para 0,3 a 1,5 no recorte de 2013 a 2023.
O resultado fortalece o argumento climático do etanol de milho segunda safra, mas não dispensa cautela: médias nacionais escondem diferenças regionais, produtividade baixa aumenta emissões por litro produzido e a expansão futura ainda precisa ser monitorada.
(Com Meteored Brasil)
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