Milho safrinha atinge 17 milhões de hectares sem derrubar a floresta

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Meteored Brasil

O milho segunda safra entrou no centro do debate sobre clima, uso da terra e bioenergia no Brasil. Um estudo nacional publicado na npj Sustainable Agriculture mapeou 17,1 milhões de hectares cultivados em 2023 e mostrou que a expansão recente avançou menos sobre vegetação natural, especialmente na última década.

A cultura já sustenta grande parte da produção brasileira de grãos e abastece uma fatia crescente do etanol de milho. Em um país onde agricultura, energia e mudança de uso da terra pesam nas emissões, entender onde o milho avança virou questão estratégica no campo para produtores, indústria e políticas climáticas.

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Cerrado concentra a maior área de milho segunda safra

O mapa do estudo mostra um cinturão bem definido no Centro-Oeste, com forte presença em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Mato Grosso sozinho respondeu por cerca de 44% da área nacional mapeada em 2023, enquanto Mato Grosso do Sul e Goiás formam outros polos importantes. É nessa faixa que o calendário agrícola permite, em muitos municípios, colher a soja e semear o milho ainda dentro da janela útil.

A expansão recente do milho segunda safra ocorreu principalmente sobre áreas já abertas, como pastagens e lavouras consolidadas, com menor avanço sobre vegetação natural.

A leitura espacial também revela a força do Cerrado, que concentrou 53,9% da área nacional de milho segunda safra. A Amazônia aparece com 28,4% e a Mata Atlântica com 17,6%. No mapa, a cultura se espalha como uma faixa agrícola do centro do país em direção ao oeste e ao sul, acompanhando áreas consolidadas de soja. Essa distribuição mostra que a discussão não é apenas produtiva: ela passa por biomas sensíveis, logística de grãos e pressão por rastreabilidade.

Expansão recente ocorreu mais em áreas já abertas

O ponto mais forte do levantamento é a mudança no perfil da expansão. Entre 2003 e 2023, cerca de 13% da área atual de milho segunda safra estava associada à conversão de vegetação natural. No recorte mais recente, de 2013 a 2023, essa participação caiu para 3,6%, indicando menor pressão direta sobre áreas naturais.

Práticas de manejo do solo, como maior cobertura vegetal e sistemas de dupla safra, ajudam a compensar parte das emissões associadas à mudança de uso da terra.

Práticas de manejo do solo, como maior cobertura vegetal e sistemas de dupla safra, ajudam a compensar parte das emissões associadas à mudança de uso da terra.

A maior parte da expansão recente ocorreu sobre pastagens, lavouras anuais já existentes e áreas de soja em cultivo único, onde o milho passou a entrar como segunda cultura no mesmo ano agrícola.

Na prática, isso significa mais produção na mesma área, embora o resultado dependa de controle do desmatamento, fiscalização territorial e bom manejo do solo.

Pontos de atenção para o agro:

  • avanço sobre pastagens degradadas, com potencial de recuperação produtiva;
  • maior uso do sistema soja–milho, que intensifica áreas já abertas;
  • menor participação recente da conversão de vegetação natural;
  • necessidade de monitoramento em regiões de fronteira agrícola.

Carbono do solo reduz emissões, mas não elimina riscos

O estudo estimou emissões líquidas por mudança direta de uso da terra entre 0,6 e 0,9 tonelada de CO₂ por hectare ao ano para o milho segunda safra. Ao mesmo tempo, práticas de manejo do solo compensaram parte desse saldo, com acúmulo estimado entre 0,1 e 0,2 tonelada de CO₂ por hectare ao ano.

A compensação não zera o impacto, mas mostra que o manejo pode mudar o balanço final, sobretudo em áreas bem conduzidas e monitoradas.

Esse ganho está ligado à sucessão soja–milho, ao maior retorno de palhada ao solo e a práticas como plantio direto. Para o etanol, o balanço combinado ficou entre 2,3 e 5,3 gramas de CO₂ por megajoule no período de 2003 a 2023, caindo para 0,3 a 1,5 no recorte de 2013 a 2023.

O resultado fortalece o argumento climático do etanol de milho segunda safra, mas não dispensa cautela: médias nacionais escondem diferenças regionais, produtividade baixa aumenta emissões por litro produzido e a expansão futura ainda precisa ser monitorada.

(Com Meteored Brasil)

 

 

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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