Começa o El Niño 2026-2027

Começou o El Niño de 2026-2027 em episódio de aquecimento das águas da faixa equatorial do Oceano Pacífico que será mais forte que o de 2023-2024 e pode ser um dos mais intensos da era moderna, conforme análise da MetSul Meteorologia. El Niño que começa pode ser extremo no segundo semestre | ESA O fenômeno El Niño é oceânico-atmosférico e critérios devem ser preenchidos tanto no Oceano Pacífico como na atmosfera para que seja declarado o começo do um evento.
De acordo com a interpretação da MetSul, tais critérios já são satisfeitos e é possível anunciar neste momento que um evento de fase quente do Pacífico teve início. Embora a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, ainda não tenha declarado o começo de um episódio de El Niño, tal anúncio por parte da agência de clima norte-americana deverá vir nos próximos dias, tal a velocidade com que o Pacífico aquece e a intensidade do aquecimento assim como pelas mudanças que já são observadas na atmosfera, típicas do fenômeno.
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Em nível oceânico, as águas do Oceano Pacífico Equatorial apresentam comportamento de El Niño há várias semanas. Nos últimos dias, as anomalias de temperatura do mar (desvios em relação à média) aumentaram significativamente à medida que águas muito quentes que avançaram do Pacífico Oeste até o litoral da América do Sul começaram e emergir na superfície.
Assim, tanto por critérios oceânicos como atmosféricos os indicadores são totalmente consistentes nesta primeira semana de junho com a instalação de um episódio de El Niño no Oceano Pacífico Equatorial.
EL NIÑO PODE SER UM DOS MAIS INTENSOS DA HISTÓRIA
O episódio de El Niño que agora começa será de forte intensidade e há uma muito alta probabilidade que atinja intensidade muito forte, configurando um evento de Super El Niño no decorrer do segundo semestre deste ano. Se as projeções dos modelos numéricos vierem a se confirmar, este El Niño de 2026-2027 poderá ser um dos mais intensos dos tempos modernos, rivalizando ou superando em intensidade os eventos de 1982-1983 e 1997-1998 que foram episódios de Super El Niño poderosos.
Entre março e junho, os modelos de clima apresentam menor confiabilidade quanto aos prognósticos para o Pacífico, a chamada barreira de previsibilidade do outono, mas os dados têm apresentado uma consistência em indicar um evento de El Niño de enorme intensidade a extremo.
]Mais do que isso, os primeiros dados de modelos agora de junho, já no final da chamada barreira de previsibilidade, aumentaram ainda mais a intensidade do El Niño na comparação com o que indicavam no começo do outono, caso do modelo climático do Centro Meteorológico Europeu (ECMWF).

As atualizações dos demais modelos que serão divulgadas nos próximos dias tendem a seguir a tendência já indicada pelo ECMWF de um El Niño ainda mais intenso. A principal razão é um novo episódio de ventos intensos de Oeste (Westerly Wind Vurst) sobre o Pacífico Equatorial, fenômeno que favorece o deslocamento de grandes volumes de água mais quente para Leste. Tal processo vai reforçar o aquecimento da superfície do oceano nas regiões centrais e orientais do Pacífico, aumentando a probabilidade de que as projeções passem a indicar um evento mais forte e potencialmente mais duradouro nos próximos meses com pico no último trimestre do ano.
QUAL SERÁ O IMPACTO DESTE EL NIÑO NO BRASIL
Como nenhum episódio de El Niño é igual ao outro e cada episódio tem a sua própria história, este evento de 2026-2027 produzirá muitas das consequências observadas no passado quando da atuação do fenômeno, mas não necessariamente iguais ou com a mesma proporção. Uma série de fatores atmosféricos em paralelo ao El Niño, e que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio. No episódio deste ano, os efeitos no clima serão sentidos mais a partir do segundo semestre, especialmente no fim do inverno e na primavera.

Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura. No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal. Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.
Em 2026, conforme os indicativos de vários modelos de clima, o El Niño será diferente do último nos seus impactos no Centro-Oeste e no Sudeste do Brasil nos primeiros meses do fenômeno com chuva acima a muito acima da média em diversos pontos de estados das duas regiões.
No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte, mas mesmo no verão podem ocorrer extremos de chuva com enchentes.
As duas maiores enchentes da história gaúcha, 1941 e 2024, não se deram no primeiro ano do El Niño e sim no outono do ano seguinte, o que neste episódio corresponderia a 2027. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio no Sul do Brasil. O final do inverno e a primavera, em particular, são de alto risco de tempo severo com temperaturas mais altas, sendo frequentes ondas de tempestades com granizo, vendavais e até tornados.
RIO GRANDE DO SUL ENFRENTARÁ ENCHENTES E PODEM SER GRAVES
Se mesmo sem El Niño, com La Niña ou neutralidade no Pacifico, o Rio Grande do Sul enfrenta enchentes, o risco de cheias de rios e inundações aumenta consideravelmente sob El Niño. Assim, no entendimento da MetSul Meteorologia, a questão não é se haverá enchentes, mas quantas e qual será a magnitude, o que somente se prevê em curto prazo.
Historicamente, sob El Niño, o período mais crítico para enchentes se concentra no segundo semestre do ano de instalação do fenômeno e no primeiro do ano seguinte, ou seja, o risco será maior na segunda metade de 2026 e na primeira de 2027, sobretudo na primavera de 2026 e no outono de 2027. Foi exatamente o que ocorreu em 2023, ano que marcou o começo do último episódio de El Niño.
A primeira enchente se deu com comum ciclone extratropical na costa do Litoral Norte ainda em junho, logo no começo do El Niño, o que provocou 16 mortes e um desastre no município de Caraá. As piores cheias, entretanto, aconteceram em setembro e novembro daquele ano. A cheia do Rio Taquari de setembro foi uma das maiores da história e deixou mais de 50 mortos no vale. A de novembro foi novamente muito grande e ainda maior em Porto Alegre.
O Guaíba, que não excedia a cota de transbordamento de 3,00 metros desde setembro de 1967, rompeu a marca duas vezes em apenas 50 dias na primavera de 2023. Na sequência, o grande desastre do fim de abril e maio de 2024 com cheias recordes de rios como Sinos, Caí, Taquari, Jacuí e ainda o Guaíba, em cenário que não se testemunhava desde maio de 1941 com destruição em larga escala e mais de 200 mortos, incluindo as vítimas por leptospirose que não foram incluídas no balanço oficial da Defesa Civil.
HAVERÁ UMA GRANDE ENCHENTE COMO A DE 2024?
Esta é a resposta que não temos e ninguém pode ter no Brasil ou no mundo, mesmo com todos os recursos avançados de previsão hoje existentes. Isso porque é possível se prever meses antes uma condição favorável à chuva muito acima do normal com risco agravado de enchentes, mas os episódios de chuva extrema que causarão as enchentes apenas são previsíveis dias antes.
O importante é ter em mente que não é porque o El Niño está de volta, e provavelmente mais forte que em 2023-2024, que a catástrofe de 2024 se repetirá. A relação não é linear e automática e envolve uma série de fatores além do Pacífico. Eventos de El Niño muito fortes na história recente, como 1982-1983, 1997-1998 e 2015-16, foram responsáveis por grandes enchentes no Sul do Brasil, mas nada comparado ao que se viu em 2024.
Além disso, como cada El Niño tem sua história e é diferente dos outros, no passado os eventos muito fortes tiveram os piores impactos de forma distinta. Em 1982-1983, Santa Catarina sofreu mais com a chuva do El Niño e houve um desastre no Vale do Itajaí. Em 1997-1998 (que teve características muito parecidas com o que se prevê para 2026), particularmente o Oeste do Rio Grande do Sul foi mais afetado com grande cheia do Uruguai e tempo muito severo. Em 2023-2024, o Rio Grande do Sul quase todo foi duramente afetado.
Além de cada El Niño se manifestar de forma distinta em seus efeitos, em 2024 atuavam outros vários fatores concomitantes ao El Niño e que foram responsáveis por criar o cenário climático que levou à catástrofe, uma “tempestade perfeita” de fatores, e que não necessariamente podem se reunir novamente.
(Com METSUL)











