La Niña está nos últimos dias

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Faep

O fenômeno La Niña ainda atua neste fim de janeiro no Oceano Pacífico, entretanto os dados analisados pela MetSul Meteorologia indicam que se encontra nos últimos dias e deve muito em breve chegar ao fim.

Hoje, conforme o último boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central-Leste (região Niño 3.4) está em -0,7ºC. O valor está na faixa de La Niña de fraca intensidade (-0,5ºC a -0,9ºC).

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São 14 semanas seguidas em que a anomalia da temperatura da superfície do mar está em patamar de La Niña no Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste, desde a metade de outubro.

A maior anomalia negativa foi de apenas -0,8ºC, observada nas semanas de 12 de novembro, 19 de novembro e 7 de janeiro.

Ou seja, em nenhum momento o fenômeno sequer alcançou intensidade moderada e se trata de um episódio muito fraco e curto de La Niña, o que, aliás, era antecipados pelos modelos de clima.

No Pacifico Equatorial mais a Leste, perto das costas do Peru e do Equador, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 1+2 foi de -0,3ºC.

Essa zona em especial do oceano costuma ter impacto na chuva do Rio Grande do Sul e quando se resfria nesta época do ano tende a reduzir a chuva no estado gaúcho com impactos na agricultura.

POR QUE A LA NIÑA ESTÁ NO FIM

A La Niña está claramente no fim porque águas mais quentes estão prestes a atingir a superfície do mar no Pacifico, vindo das profundezas, o que vai determinar a transição para a neutralidade.

Nas últimas semanas, meteorologistas que monitoram o clima global passaram a observar mudanças importantes na temperatura das águas abaixo da superfície do Pacífico Equatorial — região que funciona como o “coração” dos ciclos de La Niña e El Niño.

O ponto central dessa virada é o surgimento de uma forte onda quente submersa, detectada pelas boias TAO, uma rede internacional de instrumentos que monitora continuamente o Pacífico. Essa onda, chamada de onda Kelvin de subsidência, é uma massa enorme de água mais quente que se desloca em profundidade.

Em vez de aparecer na superfície imediatamente, ela começa sua jornada no Pacífico Oeste e viaja para o Leste ao longo da termoclina, a camada que separa as águas mais quentes do topo das mais frias do fundo. Esse movimento não é detalhe técnico: é exatamente o tipo de sinal que antecede o enfraquecimento de o final de um evento de La Niña.

Quando uma onda Kelvin quente se desenvolve, ela empurra a água fria para baixo e faz com que água mais quente se aproxime da superfície — justamente o oposto do que mantém a La Niña ativa. Em outras palavras, o oceano está mudando de “modo”.

A água que antes estava mais fria na faixa equatorial começa a perder força, abrindo espaço para temperaturas mais elevadas que levam o Pacífico a um estado neutro ou até mesmo ao início de uma fase de El Niño.

O cenário mais seguro é que a La Niña está perdendo suas características essenciais e entrando em seu processo final. O Pacífico está esquentando de baixo para cima, e esse aquecimento submerso é o gatilho que normalmente marca a transição para uma nova fase climática.

A tendência dominante é de neutralidade agora em fevereiro e, possivelmente, de um El Niño em desenvolvimento ao longo do próximo outono e inverno. Em se confirmando um El Niño, ainda não é possível saber a esta altura qual será a sua intensidade, um cenário de El Niño forte não pode ser descartado.

O QUE É O FENÔMENO LA NIÑA E COMO IMPACTA O BRASIL

O fenômeno La Niña tem impactos relevantes no sistema climático global, sendo caracterizado por temperaturas abaixo do normal na superfície do Oceano Pacífico equatorial central e oriental. Essa condição contrasta com o El Niño, sua contraparte quente, e faz parte do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que influencia os padrões climáticos em todo o mundo.

Durante um evento, as águas do oceano Pacífico equatorial central e oriental ficam mais frias do que o normal. Isso tem efeitos significativos nos padrões de vento, precipitação e temperatura ao redor do globo. A última vez em que a fase fria esteve presente foi entre 2020 e 2023 com um longo evento do fenômeno que trouxe sucessivas estiagens no Sul do Brasil e uma crise hídrica no Uruguai, Argentina e Paraguai.

No Brasil, os efeitos variam de acordo com a região. O Sul do país geralmente experimenta menos chuva enquanto o Norte e o Nordeste registram um aumento das precipitações. Cresce o risco de estiagem no Sul do Brasil e no Mato Grosso do Sul, embora mesmo com a La Niña possam ocorrer eventos de chuva excessiva a extrema com enchentes e inundações.

Infográfico de La Niña e El Niño

Além da chuva, o fenômeno também influencia as temperaturas em diferentes partes do mundo. No Sul do Brasil, o fenômeno favorece maior ingresso de massas de ar frio, não raro tardias no primeiro ano do evento e precoces no outono no segundo ano do episódio. Por outro lado, com estiagens, aumenta a probabilidade de ondas de calor e marcas extremas de temperatura alta nos meses de verão no Sul.

Em escala global, quando o fenômeno está presente há uma tendência de diminuição da temperatura planetária, o que nos tempos atuais significa menos aquecimento da Terra. O aquecimento do planeta, entretanto, foi tamanho recentemente que a temperatura média do planeta hoje em um evento de La Niña forte tende a ser mais alta que em um evento de forte El Niño décadas atrás.

(Com METSUL)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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