Bactéria da caatinga pode pôr fim em prejuízos no soja

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Plantas de buva resistentes em área de cultivo de soja Foto: Fernando Adegas

 

Os prejuízos provocados pela planta daninha buva nas lavouras de soja do País já alcançam cerca de R$ 5 bilhões por ano e podem chegar a R$ 9 bilhões caso o avanço da resistência a herbicidas continue no ritmo atual. Mas uma simples bactéria da Caatinga brasileira pode virar esse jogo.

Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade de São Paulo identificaram, em uma bactéria isolada nos solos desse bioma, compostos naturais capazes de inibir a germinação da planta daninha, abrindo caminho para o desenvolvimento de um bioherbicida inédito e adaptado à realidade agrícola do País.

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Esta bactéria que se mostrou eficiente contra a buva, ao longo de um estudo que vem sendo desenvolvido há cerca de 10 anos. Ela, por exemplo, vem de um grupo de milhares outros microrganismos coletados na Caatinga, segundo o pesquisador Danilo Tosta Souza, da USP.

“Pode-se dizer que foi como encontrar uma agulha num palheiro”, diz Souza.

“A Caatinga é pouco explorada e possui uma infinidade de recursos biológicos que podem ser melhor estudados para o melhor desenvolvimento agrícola”, diz Souza, que segue ainda analisando os demais milhares de espécies coletadas no bioma.

Este trabalho incansável tem um efeito grandioso que é poder livrar os produtores de um fardo como a buva, que se traduz em perda direta de produtividade, aumento dos custos operacionais e maior pressão ambiental sobre os sistemas produtivos.

A buva como gargalo econômico da soja

Uma planta daninha ou invasora é essencialmente uma planta que vai competir por espaço, luz e nutrientes (caros) com vegetais de maior importância, como é o caso da soja. A buva, presente em praticamente todas as regiões produtoras da oleaginosa, consolidou-se como uma das principais inimigas dos agricultores brasileiros.

A espécie desenvolveu resistência a diferentes mecanismos de ação de herbicidas sintéticos, tornando o manejo mais caro e menos eficiente.

Estudos estimam que apenas uma planta por metro quadrado pode reduzir o rendimento da soja em até 14,6%. Em áreas com sete plantas por metro quadrado, as perdas de produtividade chegam a 50%, comprometendo o desempenho econômico da lavoura e dificultando operações de colheita.

Os efeitos financeiros desse cenário são expressivos. No Paraná, os custos adicionais associados ao controle de plantas daninhas resistentes alcançam cerca de R$ 2 bilhões por safra. No Rio Grande do Sul, a soma das perdas produtivas e dos gastos com manejo ultrapassa R$ 4 bilhões.

Em escala nacional, a buva já responde por uma fatia relevante dos prejuízos do sistema produtivo da soja, pressionando margens em um momento de custos elevados e maior escrutínio ambiental.

A busca por alternativas fora do pacote químico tradicional

Foto: Fernanda Birolo/Espécies do bioma Caatinga

A alternativa em estudo surge da diversidade microbiana dos biomas brasileiros. O trabalho teve início com a triagem de actinobactérias, grupo de microrganismos conhecido pela capacidade de produzir compostos bioativos de interesse agrícola e farmacêutico.

Amostras coletadas em diferentes regiões do País foram avaliadas quanto ao potencial de inibição de plantas daninhas, mas foi a Caatinga que apresentou os resultados mais promissores.

Nesse bioma semiárido, marcado por altas temperaturas, escassez hídrica e solos pobres, destacou-se a cepa conhecida cientificamente por Streptomyces sp. Caat 7-52. O microrganismo demonstrou a capacidade de produzir metabólitos com forte efeito fitotóxico para a buva.

Para o pesquisador Itamar Soares de Melo, da Embrapa Meio Ambiente, a Caatinga funciona como um laboratório natural, no qual microrganismos desenvolvem estratégias bioquímicas singulares para sobreviver ao estresse ambiental, frequentemente resultando em moléculas inéditas.

Albociclina: uma atividade herbicida até então desconhecida

A análise química revelou dois compostos principais: o ácido 3-hidroxibenzóico e a albociclina. Embora já conhecida pela ciência, a albociclina tem, pela primeira vez, sua atividade herbicida descrita com este estudo.

Em testes laboratoriais, o composto foi capaz de inibir a germinação da buva em concentrações de apenas 6,25 µg/mL, desempenho considerado relevante para uma molécula de origem natural.

Segundo, o achado amplia o horizonte de aplicação da albociclina e reforça o potencial ainda pouco explorado da biodiversidade da Caatinga.

O bioma, frequentemente associado apenas à fragilidade ambiental, abriga uma diversidade microbiana adaptada a condições extremas, o que favorece o surgimento de metabólitos com alto valor funcional para a agricultura.

Escala, custo e viabilidade industrial

Além da identificação dos compostos, o estudo avançou na otimização das condições de cultivo da bactéria.

Ajustes no meio fermentativo permitiram aumentar a produção de albociclina e gerar análogos estruturais, ampliando a diversidade química disponível. Essa etapa é considerada estratégica para viabilizar a escalabilidade industrial de um futuro bioherbicida, ao elevar rendimento e flexibilidade de formulação.

Outro resultado relevante veio dos testes com o caldo fermentado bruto da bactéria. Sem necessidade de extração ou purificação química, o material apresentou efeito seletivo contra plantas daninhas dicotiledôneas, grupo que inclui buva, e outras plantas daninhas como o caruru e o picão-preto.

Na prática, isso reduz etapas industriais, diminui custos e elimina o uso de solventes, reforçando o apelo ambiental e econômico da solução.

Do laboratório ao campo

Os pesquisadores ressaltam que a tecnologia ainda se encontra em fase inicial. Os próximos passos incluem ensaios em condições de campo, avaliação da eficácia em diferentes culturas, estudos de ecotoxicologia e o desenvolvimento de formulações comerciais.

A expectativa é integrar a solução a programas de Manejo Integrado de Plantas Daninhas, combinando práticas biológicas, químicas e agronômicas para maior eficiência e menor impacto ambiental.

Biodiversidade como ativo estratégico do agronegócio

Mais do que um avanço pontual, a descoberta reforça o valor estratégico dos biomas brasileiros como fonte de inovação para o agronegócio e poder o país na área de biossoluções.

Em um país que figura entre os maiores consumidores de herbicidas do mundo, transformar biodiversidade em tecnologia representa uma oportunidade de reduzir a dependência de insumos importados, fortalecer o setor de bioinsumos e responder às crescentes restrições regulatórias e ambientais.

Ao conectar ciência, economia e biodiversidade, a pesquisa indica que a Caatinga pode deixar de ser vista apenas como um bioma vulnerável e passar a ocupar um papel central na construção de soluções para um dos maiores gargalos econômicos da soja brasileira.

(Com Forbes Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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