CLIMA

Tornado que atingiu o Paraná pode ter sido um EF-4 com vento de até 300 km/h

Um violento tornado atingiu no fim da tarde de sexta-feira (7) o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, causando devastação e destruindo bairros inteiros da cidade em um dos mais graves episódios de tempo severo da história recente do país.

Oficialmente, autoridades do governo do Paraná confirmaram cinco mortes por efeito do tornado em Rio Bonito do Iguaçu. As vítimas fatais foram três homens com idades de 49, 57 e 83 anos, e duas mulheres, com idades de 14 e 47 anos.  Mais de 750 pessoas ficaram feridas na cidade, algumas com gravidade, possivelmente o número mais alto de pessoas lesionadas até hoje em um episódio de tempo severo no Brasil.

Mais de 30 de máquinas mobilizadas para ajudar Rio Bonito

O tornado na cidade paraense é o mais trágico no Brasil da história recente e o mais grave no Paraná em 66 anos. Conforme registros em levantamento histórico da MetSul, trata-se do maior número de fatalidade por um tornado desde a tragédia de Antônio Prado, na Serra Gaúcha, em dezembro de 2003. O risco do fenômeno no Paraná foi alertado pela MeSul Meteorologia na véspera e ainda foi reforçado horas antes.

O tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu deixou ao menos 1.000 pessoas desalojadas e cerca de 28 desabrigadas na cidade, segundo levantamento prévio da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Paraná. Ao menos metade das construções da cidade de 15 mil habitantes sofreu danos severos e parte da cidade foi dizimada pelo tornado. Tornados ocorrem todos os anos no Sul do Brasil e a maioria se dá em áreas rurais de baixa densidade populacional ou campo aberto, sem provocar vítimas. Tanto que muitos se dão em campo aberto, sem danos, e sequer entram na estatística.

Quando tornado atravessa a área urbana de uma cidade, o que é muito menos comum, o potencial de destruição e vítimas cresce e muito. O nível de destruição em extensas áreas de Rio Bonito do Iguaçu variou entre severo e absoluto. Quarteirões inteiros foram dizimados com construções sólidas totalmente destruídas pela intensidade extraordinária do vento, a ponto de somente restar o piso de algumas moradias de alvenaria.

Os danos foram catastróficos na faixa de terreno de centenas de metros de diâmetro por onde atravessou o tornado, incluindo a área central da cidade. Carros foram virados e alguns até arremessados contra as construções durante a passagem do fenômeno pela localidade. Além das construções, o tornado teve um grande impacto na vegetação local. Árvores tiveram seus troncos decepados e grande parte da vegetação perdeu as folhas, o que somente se observa em eventos de grande poder destrutivo.

RIO BONITO DO SUL PODE TER SIDO ATINGIDO POR UM TORNADO RARO NO BRASIL

Conhecido termo entre os experts em tornados nos Estados Unidos, um “wedge tornado” (tornado de cunha) é um termo informal usado por caçadores de tempestades para descrever tornados que parecem mais largos que altos, com uma base visualmente muito extensa. A MetSul Meteorologia acredita que um tornado desta natureza tenha atingido o município de Rio Bonito do Sul pela extensão dos danos severos na faixa de terreno atingida. Tecnicamente, nenhum tornado é realmente mais largo que alto — já que a circulação se estende por até 10 a 12 quilômetros dentro da nuvem —, mas a parte visível abaixo da base da tempestade pode dar essa impressão. Tornado do tipo wedge nos Estados Unidos | NOAA Segundo o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS), apenas um ou dois em cada mil tornados chegam a ter mais de 1,6 km de diâmetro — embora esse número possa ser maior em casos de tempestades envoltas por chuva, onde os limites do vórtice são difíceis de definir. Os chamados “megawedge” tornadoes são os ainda mais raros, com largura superior a 2,4 km. O NWS registrou oficialmente apenas cerca de 30 casos entre mais de 84 mil tornados catalogados. O maior já observado foi o de El Reno, Oklahoma, em 31 de maio de 2013, com impressionantes 4,2 km de diâmetro.

TORNADO PODE TER SIDO UM EF-4 NA AVALIAÇÃO DA METSUL

Recentemente, em 6 de outubro, o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS) revisou e elevou a categoria de um tornado que atingiu em junho a cidade do Enderlin, no estado da Dakota do Norte para EF-5 que é o mais alto da escala dos tornados. O último tornado EF5 no país tinha sido o de Moore, em Oklahoma, em 20 de maio de 2013.

O tornado de Enderlin, Dakota do Norte, em 20 de junho de 2025, foi reclassificado como EF5, o nível máximo na escala de intensidade, pelo escritório do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) de Grand Forks após novas análises de campo e consultas com especialistas de diferentes países em danos por vento que realizaram estudos forenses que perduraram por meses.

A classificação da intensidade de um tornado, portanto, é uma questão complexa e por demais intricada que não pode ser feita horas depois do fato sem extensa avaliação de campo dos danos e estudos forenses de classificação de danos a partir de critérios objetivos estabelecidos. Nesse sentido, o centro meteorológico paranaense indicou preliminarmente que Rio Bonito do Iguaçu foi atingida por tornado “classificado preliminarmente com o índice F2 – o que equivale a ventos entre 180 km/h e 250 km/h” com “fortes indícios de que o tornado pode, em alguns pontos da cidade, ter ultrapassado os 250 km/h, o que mudaria a classificação para F3”.

Esta foi uma avaliação muitíssimo preliminar, feita ainda sem imagens aéreas e avaliação de campo, que muito provavelmente será revista pelo centro paranaense. A resposta definitiva deve tardar semanas ou meses após estudos mais aprofundados de avaliação dos danos, como deve ser conduzido pelo grupo de estudos  em tempo severo da Universidade Federal de Santa Maria (PREVOTS).

Preliminarmente, com base em mais de uma centena de fotos e dezenas de vídeos em terra e feitos do ar por drone, a MetSul Meteorologia estima a partir da extensão e da magnitude dos danos que o tornado de Rio Bonito do Iguaçu deve ser classificado no limite superior da categoria EF3 ou mesmo na categoria F4 na Escala Aprimorada de Fujita com vento em 3 segundos entre 250 km/h e 300 km/h. Fizemos análise comparativa de danos observados em tornados recentes nos Estados Unidos classificados como EF3 e EF4 com as imagens dos impactos no município de Rio Bonito do Iguaçu e os estragos e sua severidade apresentam enorme semelhança com eventos classificados como EF4 em território norte-americano.

Como referência, utilizamos para estudo de caso tornados que atravessaram nos Estados Unidos áreas urbanas de cidades de pequena a médio porte, e o que teve maior grau de semelhança de severidade e extensão dos danos foi um ocorrido na cidade de Mayfield (população de 9805 habitantes), no estado do Kentucky, em 10 de dezembro de 2021.

O tornado de Mayfied, que foi apelidado de “A Besta” em seminário do GSFC da NASA, matou 57 pessoas e deixou 519 feridos. Foi o tornado mais mortal já registrado nos Estados Unidos em dezembro e o mais letal desde o tornado de Joplin, no Missouri, em 22 de maio de 2011.

Foi classificado como um EF-4 pelo Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos com vento de 310 km/h, mas alguns dos maiores especialistas forenses em tempo severo da comunidade meteorológica norte-americana defenderam publicamente que o tornado poderia ser reclassificado para EF-5, o mais alto nível da escala.

Você vai ver a seguir comparação fotos em terra e aéreas dos danos observados em Rio Bonito do Iguaçu (sem classificação definitiva ainda de intensidade) e em Mayfield (tornado classificado como EF-4 na Escala Aprimorada de Fujita).

IMAGEM AÉREA:

RIO BONITO DO IGUAÇU | JONATHAN CAMPOS/AEN
MAYFIELD (EUA) | SCOTT OLSON/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP/METSUL

 

IMAGEM AÉREA

RIO BONITO DO IGUAÇU | DANIEL CASTELLANO/AFP/METSUL
MAYFIELD (EUA) | TAYFUN COSKUN/ANADOLU AGENCY/AFP/METSUL

COLPASO ESTRUTURAL TOTAL

MAYFIELD (EUA) | BRENDAN SMIALOWSKI/AFP/METSUL

(Com METSUL)

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

Recent Posts

ATÉ QUARTA: tarifaço americano deixa País em suspense

Até esta quarta-feira (15.07), o setor agropecuário brasileiro vive um cenário de incerteza que pode…

julho 13, 2026

Encontros de Líderes Rurais reuniram mais de 2,8 mil produtores

“Da família, a liderança. Do protagonismo, a força do agro” foi o tema da 6ª…

julho 13, 2026

14º Encontro Estadual de Produtoras Rurais é anunciado

Cascavel será palco de um dos maiores eventos voltados ao protagonismo feminino no agronegócio brasileiro.…

julho 13, 2026

Cotações Agropecuárias: Colheita amplia oferta de feijão carioca; mercado de preto segue firme

O avanço gradual da colheita da safra irrigada tem ampliado a oferta de feijão carioca…

julho 13, 2026

Instabilidade internacional causa aumento no preço de fertilizantes

O mercado mundial de fertilizantes está passando por um período de incertezas. Conflitos internacionais como…

julho 13, 2026

Entidades querem um “Fundo Garantidor” para custeio rural

Cinco das principais organizações do setor agropecuário brasileiro encaminharam ao Governo Federal uma proposta para…

julho 13, 2026

O site SOU AGRO utiliza cookies e outras tecnologias

Leia Mais