A revolução tecnológica do agronegócio pode impactar o desenvolvimento da indústria

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Foto: ANeto/Arquivo Embrapa

A indústria poderá se beneficiar amplamente da revolução tecnológica do agronegócio brasileiro. É o que se depreende da exposição feita por Alexandre Nepomuceno, o chefe-geral da Embrapa Soja, na reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da FIESP, na semana passada em São Paulo (SP). O objetivo da Cosag, na reunião foi debater como a indústria deve se estruturar para aproveitar cada vez mais os desenvolvimentos tecnológicos do agronegócio, carro-chefe da economia brasileira.

Alexandre Nepomuceno, apresentou as perspectivas da biotecnologia e de novas técnicas de melhoramentos de plantas no Brasil. “Estamos passando por várias revoluções tecnológicas. Duas muito importantes no agronegócio. Uma é a digital com o uso de drones, sensores para medição em tempo real de sentenças e doenças, imagens de satélite, entre outras. A outra é a da genética. A biotecnologia é uma ferramenta muito importante, vai continuar sendo, principalmente, agora ajudando na bioeconomia e transformando as matérias-primas do agro para a química industrial”, destaca Nepomuceno. 

Durante o evento, Nepomuceno relatou o histórico de polêmicas sobre a entrada dos transgênicos no Brasil, inicialmente por meio da soja Roundup Ready (RR), principalmente porque a técnica utiliza genes de diferentes espécies no DNA da planta ou animal em estudo. “Apesar da polêmica, a tecnologia se consolidou e trouxe benefícios como a redução no uso de inseticidas e a viabilização do sistema de plantio direto em larga escala, entre outros exemplos, com o advento das plantas resistentes a herbicidas”, afirma.

Para dar uma visão do cenário atual, Nepomuceno mostrou os benefícios da edição gênica, técnica que consegue modificar genes e rotas metabólicas, da própria espécie em estudo, para resolver problemas agrícolas. A tecnologia de edição de genomas permite alterar partes do DNA da própria espécie, modulando características desejáveis, sem a necessidade de introdução de DNA de outras espécies, preservando a biossegurança e reduzindo os custos de colocação no mercado de tecnologias de base biotecnológica. 

“No caso da soja, por exemplo, consultamos a própria biodiversidade da espécie, por meio do Banco de Germoplasma com mais de 65 mil tipos de soja para buscar características de interesse, como a resistência a doenças”, explica. “A vantagem é que a edição gênica acelera a geração de cultivares, de forma rápida, simples e eficiente, tornando-se uma ferramenta importante para ser utilizada junto aos métodos tradicionais de melhoramento”, avalia.

Além disso, Nepomuceno bordou uma técnica de engenharia genética que vem sendo refinada em todo o mundo que é do RNAi (RNA interferente ou RNA de interferência). “É um mecanismo que inicia a expressão gênica ou dificulta a tradução de genes específicos em proteínas”, explica Nepomuceno. Por meio dessa técnica, é possível ativar um mecanismo de silenciamento gênico natural em seres vivos, no qual o cientista busca silenciar um gene vital do organismo a ser batido, seja ele uma bactéria, um vírus, um inseto ou mesmo uma planta daninha.

“Já existem, no mercado, medicamentos e produtos para controle de práticas caseiras, por exemplo, com essa tecnologia. E em 2024, o governo americano liberou, o primeiro produto de uso comercial na agricultura a base de RNAi para controle de insetos que atacam a batata. Essa tecnologia tem potencial para ser os novos herbicidas, inseticidas e fungicidas, preparados de forma mais sustentável para o meio ambiente e outros seres vivos, uma vez que é espécie específica, ou seja, atua somente no alvo do problema”, diz.

O chefe da Embrapa Soja também contextualizou o avanço da bioeconomia, que vem mudando a matriz econômica de fóssil para uma economia de química verde. “Cada vez mais vamos usar produtos da agricultura na química fina para produzir biocombustíveis e outras matérias como a borracha dos pneus, entre outros produtos”, diz.

A Embrapa Soja vem utilizando genética avançada para desenvolver cultivares de soja altamente produtivas e com características de interesse como maior tolerância à seca e de melhor qualidade industrial.

“Apresentei o exemplo da soja alto oleico que estamos estudando, mas que já é realidade nos EUA. Na composição da soja, o ácido oleico está em torno de 20% e as especificações interessantes para combustão e outros usos, por exemplo, têm altos níveis de oleico. Nos EUA, adquirimos a biotecnologia para alterar a rota metabólica da soja para produzir variedades com mais de 70% de oleico. Essa é a quantidade de oleico presente em óleos mais nobres como o azeite, por exemplo”, ressalta.

Desta forma, Nepomuceno mostra que a distância entre a ciência básica e a aplicada é sendo reduzida. “O Brasil precisa investir mais nessas tecnologias e usar essas ferramentas. Quis apresentar o que está acontecendo agora, mas também uma visão para o médio e longo prazo, além de demonstrar como essas tecnologias vão quebrar paradigmas e afetar todo o setor”, defende.

“Se o setor industrial junto com o agronegócio estiver preparado, poderemos agregar muito mais valor aos nossos produtos agrícolas, ao invés de exportar mais da metade da nossa soja em grãos, por exemplo. Temos que dominar e adotar essas tecnologias rapidamente e enxergar tudo isso como oportunidade e não como problema”, conclui.

O deputado Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, também participou da reunião, quando fez uma atualização sobre as principais pautas do agro no congresso nacional, e sobre como os parlamentares estão participando para conquistar avanços para o setor. Também participaram do evento o secretário de agricultura do estado de São Paulo Guilherme Piai Silva Filizzola, além de diversas autoridades e lideranças do setor agrícola brasileiro. 

(Com Embrapa)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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