Dívidas e juros dificultam acesso ao crédito da nova safra

Fernanda Toigo

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Imagem: reprodução/pensaragro

O crédito rural contratado entre julho e setembro caiu 30,5% na comparação com o início da safra anterior, em um cenário de endividamento, financiamento caro e maior cautela na concessão de novos empréstimos. Levantamento da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), com dados do Banco Central, aponta R$ 78,89 bilhões em operações nos primeiros três meses da temporada 2026/27, ante R$ 113,49 bilhões no mesmo período de 2025/26.

A retração envolve dificuldades dos dois lados do financiamento. Para quem empresta, aumenta a preocupação com a capacidade de receber. Para quem produz, o custo de uma nova dívida precisa caber em um orçamento que já pode estar comprometido com parcelas de safras anteriores. A combinação ajuda a explicar por que anunciar recursos no Plano Safra não garante que o dinheiro chegue à propriedade.

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O endividamento afeta diretamente essa passagem. Uma fazenda pode precisar de recursos para plantar e, ao mesmo tempo, apresentar receitas futuras já comprometidas com financiamentos, fornecedores e antecipações de venda. Nesse caso, a necessidade de crédito não significa capacidade de assumir outro empréstimo.

O Relatório de Estabilidade Financeira publicado pelo Banco Central em maio já apontava aumento dos riscos e perspectiva de pressão sobre o crédito rural. O documento também registra que instituições financeiras associaram eventos como secas, enchentes e tempestades ao crescimento da inadimplência no campo. Ressalva, porém, que o problema tem múltiplas causas e não permite separar quanto decorre exclusivamente do clima.

Na prática, perdas de produção podem reduzir a receita sem eliminar as despesas assumidas para formar a lavoura. Quando esse desequilíbrio atravessa mais de uma temporada, a dívida antiga passa a disputar espaço com o custeio do novo plantio. O banco avalia esse conjunto ao decidir se concede crédito, quanto libera e quais garantias exige.

Os juros acrescentam outra restrição. Estudo do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) aponta que o custo do financiamento limita o alcance do Plano Safra 2026/27. Mesmo nas linhas com condições preferenciais, os encargos pressionam a capacidade de pagamento e encarecem a produção e a aquisição de máquinas.

Esse mecanismo também pode reduzir a procura por empréstimos. Um produtor que consegue contratar crédito pode adiar investimentos ou diminuir o valor financiado quando considera que o retorno esperado não compensa os encargos. Assim, a queda nas operações pode reunir pedidos recusados, limites menores e decisões de não assumir novas dívidas. Os dados agregados não mostram o peso de cada situação.

Outra parte da explicação está nas alternativas às linhas tradicionais. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), as Cédulas de Produto Rural (CPRs) movimentaram R$ 32,4 bilhões na agricultura empresarial em julho e agosto. Esses títulos permitem captar recursos com obrigação de entrega de produto ou pagamento financeiro, conforme a modalidade.

Por isso, o recuo do crédito tradicional não equivale, necessariamente, a uma redução da mesma proporção em todo o financiamento da produção. As CPRs ajudam a atender parte da demanda, mas o levantamento disponível não permite afirmar quanto compensaram da queda. Tampouco seus custos e garantias são iguais em todas as operações.

A renegociação das dívidas pode aliviar o caixa, mas não assegura automaticamente outro financiamento. O resultado depende de parcelas compatíveis com a receita esperada e de uma nova avaliação de crédito.

Para o produtor, a análise precisa reunir todas as obrigações da propriedade, inclusive títulos e compromissos com fornecedores. Comparar custos, garantias e vencimentos antes de contratar ajuda a evitar que o dinheiro destinado ao plantio apenas transfira a dificuldade de pagamento para a próxima colheita.

(Com Pensar Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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