Imagem: Magnific
Os agricultores norte-americanos estão recorrendo cada vez mais a empréstimos para manter suas propriedades em funcionamento. O avanço de modalidades de crédito não tradicionais, porém, dificulta o trabalho do governo dos Estados Unidos para mensurar e monitorar o endividamento do setor.
Segundo autoridades do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), parte dessas dívidas pode não estar sendo contabilizada nas estatísticas oficiais.
Produtor rural: CNPJ obrigatório em 2027
A pressão financeira sobre os produtores aumenta após anos de margens apertadas, provocadas pela queda nos preços agrícolas e pelos altos custos dos insumos. O cenário se agravou com as disputas comerciais de Washington com compradores importantes, como a China, além da alta nos preços de fertilizantes e combustíveis associada à guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Com o aumento das falências no campo, alguns bancos restringiram a concessão de crédito, levando os agricultores a buscar alternativas junto a fornecedores, cooperativas, fabricantes de máquinas e empresas de tecnologia financeira.
A dívida agrícola dos Estados Unidos, corrigida pela inflação, mais que dobrou desde 2000, passando de aproximadamente US$ 300 bilhões para mais de US$ 605 bilhões em 2026, um recorde histórico, segundo as estimativas mais recentes do USDA.
Entretanto, levantamento da Reuters aponta que o valor real pode ser ainda maior, devido à dificuldade de contabilizar empréstimos concedidos por credores não tradicionais.
Jenny Ifft, professora de finanças agrícolas da Universidade Estadual do Kansas, estima que a dívida registrada na categoria de pessoas físicas e outros credores possa ser de duas a três vezes superior ao valor informado pelo USDA. Em 2025, essa categoria foi estimada em US$ 45 bilhões.
Um exemplo da expansão desse mercado é a Land O’Lakes, uma das maiores cooperativas agrícolas dos Estados Unidos, que oferece linhas de crédito aos produtores. Segundo sua diretora-executiva, Beth Ford, os empréstimos comprometidos por seu braço financeiro passaram de cerca de US$ 100 milhões, no outono passado, para mais de US$ 1 bilhão destinado à safra de 2027.
Diante desse cenário, o USDA está desenvolvendo pesquisas para aprimorar o levantamento das dívidas agrícolas e avaliar possíveis impactos sobre a economia. A expectativa é que os primeiros resultados sejam conhecidos em até dois anos.
Na última safra, aproximadamente metade das fazendas comerciais norte-americanas recorreu a fornecedores ou credores não tradicionais para cobrir despesas operacionais. O percentual representa um aumento de cerca de 10% em relação ao ano anterior, segundo Wesley Davis, sócio da consultoria Meridian Agribusiness Advisors.
O USDA pretende investigar se essa expansão pode provocar efeitos em cadeia sobre outros setores da economia. A preocupação remete a crises anteriores, como a do mercado de hipotecas subprime, entre 2007 e 2010, quando a falta de informações dificultou a identificação de dívidas problemáticas.
Historicamente, o governo acompanha o endividamento agrícola com base em dados fornecidos por bancos e instituições de crédito rural. Já os financiamentos concedidos por fornecedores são monitorados principalmente por meio de pesquisas com produtores.
Um dos problemas é a queda na participação nessas pesquisas: a taxa de resposta da Pesquisa de Gestão de Recursos Agrícolas do USDA caiu de aproximadamente 68% em 2009 para cerca de 33% em 2025.
Uma investigação da Reuters com mais de 52 agricultores comerciais de grãos, em sete estados do Meio-Oeste e do Sul dos Estados Unidos, revelou a dependência de múltiplas fontes de financiamento. A maioria mantinha entre sete e dez linhas de crédito, enquanto alguns possuíam mais de 30. Uma família de Iowa relatou ter 42, principalmente devido às exigências de financiamento para a compra ou o aluguel de máquinas.
Um estudo publicado em 2024, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Kansas, do USDA e da Administração Nacional das Cooperativas de Crédito, analisou mais de 4,4 milhões de registros de garantias sobre equipamentos em 14 estados agrícolas, entre 2001 e 2019.
Os pesquisadores identificaram que as dívidas com equipamentos concedidas por credores não tradicionais poderiam ser até quatro vezes superiores aos valores registrados pelo USDA.
Para Jenny Ifft, a falta de dados completos dificulta a avaliação precisa do endividamento e das condições financeiras das propriedades rurais por bancos, reguladores e formuladores de políticas públicas.
O USDA ressalta que parte dos financiamentos aparentemente concedidos por fornecedores tem origem, na verdade, em bancos comerciais ou no Sistema de Crédito Agrícola dos Estados Unidos, cujas operações já são informadas aos órgãos reguladores.
O crédito oferecido por fornecedores e revendedores facilita a aquisição de insumos, máquinas e outros produtos necessários à produção. Entretanto, também aumenta a exposição financeira dessas empresas, especialmente quando os empréstimos não contam com garantias suficientes.
Segundo Wesley Davis, uma eventual deterioração da capacidade de pagamento dos agricultores poderia atingir não apenas as propriedades rurais, mas também fornecedores, cooperativas, revendedores de equipamentos e outros participantes da cadeia produtiva.
Com a dívida agrícola em níveis recordes e o crédito alternativo cada vez mais presente, o desafio dos Estados Unidos é identificar o tamanho real das obrigações financeiras dos produtores e evitar que dificuldades no campo se transformem em uma crise mais ampla no agronegócio.
(Com CNN)
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