Diversificação pode abrir mercado internacional da carne bovina

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Faep

Em reunião da Comissão Técnica de Bovinocultura de Corte do Sistema FAEP, especialista apontou oportunidades para o produtor paranaense

Ainda sem previsão de retomada das exportações para países da União Europeia, e aguardando a “virada de cota” para que a China volte a comprar a carne do Brasil ainda neste mês, a Comissão Técnica (CT) da Bovinocultura de Corte do Sistema FAEP debateu, nesta quarta-feira (14), o mercado internacional. Cenário, dados e oportunidades foram apresentados pelo especialista da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) Rafael Lima Filho e debatidos pelos produtores paranaenses.

Segundo Lima Filho, 2026 tem sido um ano desafiador para o setor, por causa do fechamento da cota chinesa para a carne brasileira e da restrição da União Europeia ao uso de antimicrobianos. O Brasil é o maior produtor e exportador de carne bovina do mundo e responde por 31% das exportações globais. O Paraná está entre os dez principais produtores do país.

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Apesar dos volumes menores enviados aos mercados fechados, a receita e o preço médio das exportações brasileiras cresceram. De janeiro a setembro, o país faturou US$ 12,97 bilhões (+14,1%) com 2,11 milhões de toneladas embarcadas (-1,5%). O preço médio subiu 15,9%.

A China, que respondeu por 42,5% dos embarques no acumulado do ano, caiu para 5,6% em setembro. A cota brasileira, de 1,1 milhão de toneladas, foi atingida em agosto e, desde então, as vendas despencaram: em setembro, o volume foi 94,2% menor que no mesmo mês de 2025. Lima Filho explicou que há carne brasileira em câmaras frias na China, onde é mais barato mantê-la, à espera da virada da cota. A expectativa é de que as compras sejam retomadas até o fim de outubro.

Para a União Europeia, a perspectiva é diferente. O especialista não vê previsão de retirada da restrição a curto ou médio prazo, pois a carne bovina precisa cumprir protocolos e passar por toda a etapa de vistoria, como já ocorreu com o frango e o mel, que estão sob a mesma restrição. Os volumes que aparecem em setembro (19,7 mil toneladas, 15,6% do total) são de carne que as indústrias conseguiram certificar antes da medida. Vencida essa etapa, os próximos “alvos” devem ser o desmatamento e o bem-estar animal.

Estados Unidos assumem a liderança

Parte da carne que seguiria para esses mercados foi redirecionada aos Estados Unidos, que passaram a ser o principal destino, com 21,5% dos embarques em setembro. De janeiro a setembro, as exportações para o país cresceram 45% sobre o mesmo período de 2025, ano marcado pela sobretaxa. Em 2026, os norte-americanos abriram uma cota extra de 300 mil toneladas de carne magra, válida de 1º de setembro a 30 de novembro. Para Lima Filho, o redirecionamento reduz os impactos das restrições.

“Apesar das restrições, o panorama é bem positivo. Afinal, não tem carne abundante no mercado”, avaliou.

Diversificar para não ficar refém

Entre as oportunidades, Lima Filho citou mercados que podem ser explorados, como Indonésia, Filipinas e Vietnã, e outros que podem ser ampliados, como Japão e Coreia do Sul, que pagam melhor por carne de qualidade e valor agregado. Para ele, o caminho para retomar a União Europeia passa por cumprir o protocolo de não uso e segregação de antimicrobianos. Também é importante diversificar os destinos para não ficar dependente de poucos compradores, como acontece agora.

O presidente da CT, Rodolpho Botelho, defendeu que o Brasil, por meio das entidades e principalmente do governo federal, abra novos mercados com apoio das embaixadas e dos adidos agrícolas em todo o mundo.

“É importante que o Brasil abra mais mercado, diminua o mercado chinês e não fique na dependência só da China”, disse.

Segundo ele, a situação com a China preocupa mais porque o volume importado é maior, embora o valor pago pelo país não esteja entre os maiores. Ainda assim, o gigante asiático também não tem muitas alternativas de fornecimento.

Botelho destacou que o Brasil tem a carne mais barata do mundo e que os demais fornecedores não conseguem ocupar o espaço. Segundo ele, a Austrália enfrenta problemas climáticos, a Argentina se recupera de uma longa crise e o Uruguai já exporta mais de 90% do que produz. Os Estados Unidos, por sua vez, têm o menor rebanho em 75 anos e preços recordes, o que os leva a comprar carne brasileira, principalmente para hambúrguer.

Sobre a União Europeia, Botelho lembrou que o mercado não é grande em volume, mas paga bem e funciona como “cartão de visita” para outros destinos exigentes, como Japão e Coreia do Sul. “Não que o volume seja grande, mas é um cartão de apresentação para conquistar novos mercados”, afirmou.

No Paraná, apenas 11 propriedades exportam para a União Europeia, segundo o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (Sisbov). “O Brasil e, principalmente, o Paraná têm que ser mais eficientes nesse mercado externo”, afirma o presidente da CT. Ele lembra que o Estado tem poucos frigoríficos aptos à exportação e que, com 2,3% do território nacional, nunca será um grande produtor perante o restante do país. A saída, segundo ele, é trabalhar nichos e carnes diferenciadas.

“Um mercado mais direcionado, com carnes de alta qualidade, com valor agregado maior. Para isso, o Paraná tem que ser mais eficiente, temos que ter mais empresas aptas à exportação”, disse Botelho. Ele destacou que o Estado tem produtores e cooperativas com carne de altíssima qualidade, baseada em cruzamentos industriais. “O desafio é garantir oferta constante, com regularidade.”

Botelho também alertou que as exigências sanitárias e ambientais serão cobradas do Brasil com mais ênfase do que de outros países, em razão do tamanho do mercado que o país pode ocupar. “As nossas entidades, as nossas federações e os produtores têm que entrar nesse processo e se readequar aos protocolos atuais e futuros”, afirmou.

Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a atualização constante é fundamental para quem produz. “Fóruns como a Comissão Técnica permitem que o produtor entenda o que está acontecendo no mercado e se prepare. A informação de qualidade ajuda a decidir melhor, sobretudo em um ano como este, de mudanças rápidas”, afirmou. “O Sistema FAEP está lado a lado com o produtor de carne paranaense na busca por alternativas e por qualidade. Nossa carne é reconhecida, e vamos continuar trabalhando para abrir portas.”

(Com FAEP)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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