BC registra maior inadimplência do crédito rural em 15 anos

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Magnific

A inadimplência do crédito rural contratado por pessoas físicas voltou a acelerar e atingiu 8,8% da carteira em julho, o maior índice desde o início da série histórica do Banco Central (BC), em março de 2011. O novo recorde interrompe um período de relativa estabilidade e mostra que a dificuldade financeira dos produtores continua avançando, apesar das medidas anunciadas para renegociação das dívidas do setor.

Os dados divulgados pelo BC na sexta-feira (28.08) mostram uma piora rápida. Em junho, 7,5% da carteira estava inadimplente. Em apenas um mês, portanto, o indicador avançou 1,3 ponto percentual. Há um ano, em julho de 2025, estava em 4,5%, praticamente metade do percentual atual.

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O problema é ainda maior entre produtores que dependem de financiamentos contratados a taxas de mercado. Nesse grupo, a inadimplência saltou de 13,1% em junho para 15,5% em julho, também o maior nível registrado na série histórica.

Nas operações com taxas reguladas, tradicionalmente utilizadas no crédito rural, o índice é significativamente menor, mas também aumentou. A inadimplência passou de 3,3% para 3,7% entre junho e julho.

A diferença entre os dois grupos ajuda a dimensionar o peso do custo financeiro sobre o produtor. A inadimplência nas linhas a taxas de mercado é hoje mais de quatro vezes superior à registrada nas operações com juros controlados.

O presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende, avalia que o novo recorde não pode ser interpretado como um problema isolado de produtores que assumiram dívidas acima de sua capacidade.

“Quando a inadimplência alcança o maior nível de uma série de 15 anos, deixa de ser possível tratar o problema como dificuldade individual de alguns produtores. Estamos diante do resultado acumulado de safras afetadas pelo clima, queda dos preços de importantes produtos, custos elevados e juros que permaneceram altos justamente no momento em que muitas propriedades precisavam reorganizar seu caixa”, afirma.

Rezende chama atenção especialmente para a diferença entre as linhas controladas e aquelas contratadas a taxas de mercado.

“Os 15,5% de inadimplência nas operações a taxas de mercado talvez sejam o dado mais preocupante desse levantamento. Eles mostram o que acontece quando o produtor, sem encontrar crédito suficiente nas linhas tradicionais, precisa buscar recursos mais caros para financiar a atividade. A lavoura pode até produzir bem, mas chega um ponto em que a margem não consegue carregar esse custo financeiro”, diz.

Para ele, a renegociação precisa permitir que propriedades economicamente viáveis recuperem capacidade de pagamento e continuem produzindo.

“Renegociar não significa simplesmente empurrar dívida para frente. É preciso separar quem tem uma atividade produtiva viável, mas perdeu capacidade de pagamento por uma sequência excepcional de problemas, de situações em que não existe perspectiva de recuperação. Se a solução apenas alongar o passivo sem adequar parcelas e juros à geração de renda da propriedade, daqui a algum tempo estaremos discutindo novamente os mesmos números”, afirma Rezende.

A carteira de crédito rural para pessoas físicas considerada pelo Banco Central somava R$ 557,28 bilhões em julho. O saldo caiu 1% em relação a junho, mas ainda era 4,2% maior do que há um ano.

A deterioração ocorre justamente quando o governo tenta colocar em funcionamento uma nova rodada de renegociação. A Medida Provisória 1.376/2026 criou condições para reestruturação de dívidas rurais e foi apresentada com potencial de alcançar até R$ 100 bilhões em operações.

Publicada em julho, a medida ainda não produziu impacto capaz de aparecer nos indicadores do Banco Central. A operacionalização das renegociações enfrentou dificuldades nas instituições financeiras e o setor produtivo vem cobrando mudanças para ampliar o alcance da medida.

O dado de julho também pode ter sido influenciado pelo calendário de vencimentos de operações rurais. Parte importante das parcelas é concentrada em determinados períodos do ano, de acordo com a atividade e a comercialização da safra. A espera por condições de renegociação também pode ter levado produtores a postergar pagamentos.

A própria trajetória dos números, entretanto, mostra que o problema começou antes das medidas mais recentes. Em julho de 2024, a inadimplência estava próxima de 1,9%. Um ano depois havia avançado para 4,5% e agora alcança 8,8%.

A situação das empresas do agronegócio é bastante diferente. Entre pessoas jurídicas, a inadimplência chegou a 0,9% em julho, ante 0,8% em junho. Nas operações a taxas de mercado, passou de 1,1% para 1,2%, enquanto permaneceu em 0,4% nos financiamentos com taxas reguladas.

A distância entre os indicadores de pessoas físicas e jurídicas é relevante porque grande parte da produção agropecuária brasileira é financiada diretamente em nome do produtor rural. Dessa forma, a deterioração aparece com muito mais intensidade na carteira de pessoas físicas.

O cenário se torna mais delicado porque o custo do dinheiro também aumentou em julho. A taxa média do crédito rural para pessoas físicas passou de 10,5% para 11,3% ao ano. Nas operações com juros controlados, subiu de 9,2% para 9,6%, enquanto nas linhas de mercado avançou de 12,1% para 13,4% ao ano.

O produtor entra, portanto, no novo ciclo agrícola diante de uma combinação difícil: inadimplência recorde, crédito mais seletivo e taxas elevadas. O efeito pode ir além das propriedades que já estão em atraso. Quando o risco da carteira aumenta, as instituições financeiras tendem a reforçar critérios para novas concessões, o que pode dificultar o financiamento também para produtores que continuam adimplentes.

Os próximos meses mostrarão se a renegociação autorizada pelo governo será suficiente para interromper essa trajetória. Por enquanto, o levantamento de julho do Banco Central indica que a curva ainda segue na direção contrária: a inadimplência voltou a acelerar e atingiu o maior nível registrado em 15 anos.

(Com Pensar Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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