AGRICULTURA

Trigo brasileiro deve encolher 20%

A safra brasileira de trigo caminha para uma colheita menor. A Conab estima 6,2 milhões de toneladas neste ciclo, volume 20% inferior ao da temporada anterior. Boa parte da área prevista já foi ao solo: a semeadura atingiu 90,4% do previsto, com desenvolvimento satisfatório nas principais regiões produtoras.

Mesmo com o campo em ritmo adequado, o balanço da safra é de retração. A área cultivada deve encolher 13%, enquanto a produtividade tende a ceder cerca de 8%. Segundo a Consultoria Agro do Itaú BBA, esse recuo tem uma raiz econômica clara: as margens da cultura seguem pouco atrativas ao produtor, o que estimula a substituição do trigo por cevada e canola e a adoção de um pacote tecnológico mais conservador.

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O quadro brasileiro se soma a um pano de fundo internacional de oferta apertada. O El Niño pode se tornar o mais forte desde 1950, e a safra de trigo dos Estados Unidos caminha para ser a menor desde 1970.

Rio Grande do Sul e Paraná com áreas em queda

Contudo, no Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar projeta 814,2 mil hectares de trigo, uma redução de 30,2% em relação a 2025. A semeadura gaúcha alcançou 87% da área prevista, com a expectativa de que a produção do estado caia 36,4% diante da área menor e da cautela dos produtores frente ao El Niño.

No entanto, no Paraná, o plantio chegou a 98% da área prevista e volta a registrar recuo do espaço cultivado. Em 2023, o estado havia plantado 1,39 milhão de hectares. A expectativa é manter uma safra de 2,4 milhões de toneladas, número condicionado a um clima favorável durante o inverno.

Nos dois estados, o excesso de umidade prejudicou o plantio, atrasou os trabalhos no campo e dificultou as aplicações de fertilizantes e defensivos.

Até o momento da publicação, as lavouras apresentavam estandes adequados, desenvolvimento compatível com a época e poucos danos por geadas, embora haja possibilidade de maior pressão de doenças fúngicas. O Deral destaca a preocupação dos produtores paranaenses com a intensificação do El Niño para um evento classificado como ‘muito forte’.

Como o El Niño pode afetar o trigo

O principal risco no Sul do Brasil está no excesso de chuva nas fases mais sensíveis do ciclo. Chuvas acima da média poderiam coincidir com a colheita e comprometer a qualidade dos grãos. O excesso de umidade favorece doenças fúngicas como a giberela, eleva o risco de germinação na espiga, reduz o peso hectolitro e deteriora a qualidade industrial.

Grãos afetados perdem qualidade e podem ser rejeitados pela indústria de moagem, o que obrigaria os moinhos a ampliar compras em outras regiões ou no mercado externo. O efeito é inverso nas regiões de sequeiro do Centro-Oeste e do Sudeste. Ali, o El Niño pode trazer temperaturas mais elevadas e déficit hídrico, reduzindo o enchimento dos grãos e pressionando a produtividade.

Importação em alta e Argentina no radar

A produção menor reforça a necessidade de importação para atender ao consumo interno. Na sexta-feira (10), o USDA divulgou relatório que manteve a estimativa de produção brasileira e projetou as importações, cujo volume estimado supera a própria produção interna esperada para a safra.

A principal origem do cereal importado deve continuar sendo a Argentina, que tende a produzir menos após uma safra elevada, com redução de área cultivada e retorno das produtividades à média histórica.

A menor disponibilidade preocupa a indústria moageira. O mercado doméstico tende a operar mais próximo da paridade de importação, ficando mais sensível a oscilações cambiais, custos logísticos e disponibilidade de trigo de qualidade. Caso o El Niño comprometa a produção destinada à panificação, os moinhos poderão ampliar a necessidade de blends ou de importações de trigo de melhor padrão.

Por fim, no lado das margens, a capacidade de repassar os custos da matéria-prima para a farinha esbarra em uma demanda cautelosa, e o farelo de trigo segue pressionado pela competitividade do milho. As margens da moagem permanecem acima da média histórica, mas a gestão comercial deve ganhar importância no período.

(Com BP Money)

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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