Safra de trigo encolhe sob pressão de custos e geadas

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Imagem: Faep

A safra brasileira de trigo de 2026 caminha para um cenário de severa retração, pressionada por um tripé de crise: custos de produção em patamares elevados, preços de mercado estagnados e uma das instabilidades climáticas mais rigorosas dos últimos anos. A expectativa de redução na área plantada, que em polos tradicionais como o Rio Grande do Sul chega a ser estimada em 40%, aponta para uma quebra de safra que deve forçar o Brasil a ampliar sua dependência de importações ainda no segundo semestre deste ano.

Enquanto a Emater-RS projeta uma colheita próxima de 2,2 milhões de toneladas contra as até 4 milhões da temporada passada, o restante do País observa um movimento de cautela e migração de cultura. Em estados como Santa Catarina e áreas do Paraná, a decisão do agricultor tem sido ditada pela urgência de liberar espaço nos armazéns para a safrinha de milho, sacrificando a expansão do trigo que, em outros anos, ocupava áreas marginais.

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O impacto da atual onda de frio extremo, que varre o território nacional, atinge de forma desigual as diferentes fases de desenvolvimento da lavoura. No Centro-Oeste e em partes do Sudeste, onde o cereal ganha espaço como cultura de inverno, o choque térmico impõe um freio fisiológico ao desenvolvimento das plantas.

O risco é que o estresse térmico, somado à baixa umidade, comprometa a qualidade do grão antes mesmo da fase de enchimento, elevando os custos com manejo e sanidade. Diferente do Sul, onde a geada causa danos físicos visíveis, nas regiões mais ao norte e centro do País o problema é o “travamento” do crescimento, o que reduz o potencial produtivo final da safra.

A comercialização, por sua vez, enfrenta um entrave técnico. Os moinhos, temerosos com a volatilidade dos preços internacionais e com a qualidade do cereal colhido sob condições de estresse hídrico e térmico, limitam-se a negócios pontuais. A resistência em alongar posições contratuais reflete um mercado defensivo, onde a incerteza sobre o teor de qualidade — como a incidência de DON — inibe a formação de preços mais competitivos para o produtor.

Mercado e a paridade de preços

O mercado interno vive um dilema: os moinhos buscam desesperadamente trigo de qualidade (trigo-pão e melhorador) para evitar a dependência excessiva das importações, mas resistem em pagar prêmios que cubram a margem do produtor.

  • Valores: Enquanto o trigo de boa qualidade é negociado entre R$ 1.430 e R$ 1.450 por tonelada no Rio Grande do Sul, o trigo melhorador atinge R$ 1.500. No Paraná, os preços oscilam entre R$ 1.450 e R$ 1.480 CIF moinho.
  • Comportamento: O que se observa é uma “paralisia comercial”. O produtor gaúcho, sem fôlego financeiro, tenta escoar o que resta da safra anterior a R$ 69/saca no balcão, enquanto no Paraná a movimentação é ditada pela pressa em limpar armazéns para o milho.

Com a oferta nacional encolhendo, o mercado brasileiro volta a mirar a paridade de importação. A viabilidade da safra 2026, que já era desafiadora no plantio, torna-se agora uma corrida contra o tempo climático. O setor industrial já trabalha com o cenário de um segundo semestre mais caro, pressionado pela necessidade de buscar grão estrangeiro para garantir o abastecimento de farinha, enquanto o produtor nacional, descapitalizado e sob o impacto das geadas, prioriza a sobrevivência financeira imediata em detrimento da expansão produtiva que o País esperava para este ano.

(Com Pensar Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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