Inverno extremo no Hemisfério Norte: Será assim no Brasil também?

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Inverno de 2026 teve extremos de neve nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia. Cidade canadense de Toronto (foto) registrou o maior acumulado de neve em 24 horas de sua história. | MERT ALPER DERVIS/ANADOLU/AFP/METSUL

Frio extremo e muita neve no inverno de 2026 em vários países do Hemisfério Norte são um prenúncio para o nosso inverno no Brasil daqui a alguns meses? Grande parte dos Estados Unidos, muitos países europeus e parte da Ásia enfrentaram uma estação fria neste ano como há muito não se via.

POR QUE TANTOS EXTREMOS DE FRIO?

O inverno deste ano tem sido tudo menos comum em partes dos Estados Unidos e outros países do Hemisfério Norte. No Nordeste e no Meio-Atlântico norte-americano, trata-se do inverno mais frio em mais de duas décadas, com sucessivas tempestades de neve e uma nevasca recente descrita como “histórica” pelos ventos com força de furacão e pelo volume impressionante de neve.

Indústrias temem risco do acordo Mercosul-UE para o setor leiteiro

Em muitas áreas, a paisagem permanece completamente branca desde dezembro, sem sinal de grama à vista. Para quem estava acostumado a invernos mais amenos nos últimos anos, a estação voltou a ter cara e sensação e inverno de verdade.

A explicação para o frio persistente no Leste passa pelo vórtice polar, que normalmente circula sobre o Polo Norte, mantendo o ar gelado confinado ao Ártico. Em determinadas situações, porém, essa circulação pode se distorcer e se alongar, permitindo que o ar Ártico avance para latitudes mais baixas.

Neste ano, o comportamento foi incomum porque essa perturbação começou cedo, ainda em novembro, desencadeando uma sequência de ondulações da corrente de jato (vento em altitude) e recuos do vórtice ao longo da estação. Esse padrão favoreceu ondas de frio intensas e também episódios de neve volumosa, já que pesquisas recentes indicam que esses alongamentos costumam coincidir com as maiores tempestades de neve.

Foto mostra inverno rigoroso no Canadá
Inverno de 2026 teve extremos de neve nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia. Cidade canadense de Toronto (foto) registrou o maior acumulado de neve em 24 horas de sua história. | MERT ALPER DERVIS/ANADOLU/AFP/METSUL

Ciclone bomba trouxe uma das dez piores nevascas da história em fevereiro em Nova York | VANESSA CARVALHO/BRAZIL PHOTO PRESS/AFP/METSUL

Neve paralisou o Nordeste dos Estados Unidos | CHARLY TRIBALLEAU/AFP/METSUL
Frio extremo congelou o Rio Hudson em Nova York como há muito não se via | LOKMAN VURAL ELIBOL/ANADOLU/AFP/METSUL
Moscou teve inverno de muita neve | YURI KADOBNOV/AFP/METSUL
Neve bateu recordes na região perto do Mar do Japão | JIJI PRESS/AFP/METSUL

INVERNO EXTREMO NO HEMISFÉRIO NORTE ANTECIPA INVERNO RIGOROSO NO BRASIL?

Então, fica a pergunta: o inverno extremo em muitos países do Hemisfério Norte é de alguma forma um sinal para o nosso inverno de 2026 no Brasil? Teremos eventos extremos (para os nossos padrões climatológicos) também?

A MetSul Meteorologia observa há muito tendência de repetição de padrões do inverno da América do Norte meses depois no inverno do Sul do Brasil. Anos de eventos muito extremos de frio em janeiro e fevereiro, de caráter histórico, acabaram tendo depois nos meses do nosso inverno também eventos de grande intensidade e marcantes no Sul do Brasil.

Casos do ano de 1918, ano de inverno incrivelmente rigoroso nos Estados Unidos e que depois teve entre junho e julho neve na cidade de Buenos Aires e o recorde de mínima de toda a série histórica de Porto Alegre com -4ºC. Ou 1962 que foi outro ano congelante no Hemisfério Norte e após teve um inverno rigoroso no Sul do Brasil.

Enfatizamos, contudo, que o clima não é linear e os extremos de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026 no Hemisfério Norte não significam que haverá repetição do padrão aqui. É preciso ter em conta, em primeiro lugar, que o padrão geral de circulação na atmosfera hoje no mundo é um e no nosso inverno tende a ser diferente. Hoje, a atmosfera está sob influência remanescente da La Niña dos últimos meses, que impacta tanto o Brasil como o Hemisfério Norte. Já no inverno nosso, entre junho e agosto de 2026, o cenário mais provável hoje apresentado pelos dados dos modelos de clima indica o Oceano Pacífico Equatorial em fase quente com um El Niño instalado e em intensificação.

Nesse sentido, a maioria dos modelos de clima com projeções para meses à frente indica neste momento que o inverno no Centro-Sul do Brasil em 2026 deve ter temperatura acima da média na maior parte das áreas do Sul, Centro-Oeste e a Região Sudeste do território brasileiro.

Nos últimos dois eventos de El Niño de maior intensidade, no inverno que marcou o começo do fenômeno, em 2015 e 2023, a estação não foi muito fria. Ao contrário, apresentou temperatura acima a muito acima da média no Centro-Sul do país. Em 2015, agosto foi extremamente quente. Em 2023, julho e agosto apresentaram temperatura muito acima da climatologia histórica em vários estados.

O que pode ocorrer é um inverno com eventos pontuais de frio intenso, um ou outro de maior duração. No geral, porém, pelos dados de hoje, não se observa uma probabilidade alta de uma estação fria com temperatura baixa persistente como no Hemisfério Norte e sim a ocorrência de eventos episódicos de temperatura muito baixa com geada ampla e talvez neve.

Sobre neve, como o El Niño costuma trazer temperaturas médias acima do normal e menor frequência de frio intenso, porque a circulação atmosférica associada ao Pacífico equatorial aquecido favorece um padrão mais ameno no Sul do Brasil, as chances de neve tendem a ser reduzidas comparadas a anos neutros ou sob La Niña.

Mesmo assim, há casos históricos de grandes nevadas durante eventos de El Niño, o que reforça que o fenômeno climático não impede automaticamente a ocorrência de neve. Os invernos de 1957 e 1965, ambos sob forte El Niño, são lembrados na climatologia regional por episódios de neve de grande relevância histórica no Sul do Brasil.

Isso ocorre porque, sob El Niño, há mais umidade e instabilidade que, quando combinadas com uma incursão de ar polar intensa, podem gerar eventos de precipitação invernal, sobretudo nos meses de agosto e setembro. Um padrão do inverno de 2026 no Hemisfério Norte e que pode se repetir na América do Sul é uma maior frequência de ciclones pela tradicional diferença de temperatura entre frio mais intenso na Patagônia e ar quente no Brasil em anos de El Niño, agravando o risco de episódios de tempo severo e vento muito intenso, em particular no Sul do Brasil e nos países do Prata. Fator-chave para os extremos do inverno de 2026 no Hemisfério Norte foi a ondulação do jato polar e do vórtice polar para latitudes médias. Esse tipo de comportamento só pode ser previsto para o Hemisfério Sul pelo Modo Anular Sul ou Oscilação Antártica em curto prazo.

Assim, em caso de um evento de aquecimento súbito estratosférico (mais comum no Ártico que na Antártida) pode haver surpresas no inverno, mas se o sinal a prevalecer for apenas do El Niño a tendência é de um inverno mais quente que o normal.

(Com METSUL)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

Notícias Relacionadas