Protestos de agricultores pressionam governo francês contra acordo UE/Mercosul

Fernanda Toigo

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Imagem: reprodução/pensaragro/bloomberg

Agricultores franceses bloquearam, antes do amanhecer desta quinta-feira (08.01), as principais vias de acesso a Paris e pontos turísticos da capital em protesto contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, cuja aprovação pode ocorrer ainda nesta semana. O movimento amplia a pressão política sobre o presidente Emmanuel Macron em um momento de fragilidade do governo no Parlamento e de isolamento crescente da França dentro do bloco europeu.

Dezenas de tratores interditaram rodovias estratégicas, como a A13 — que liga Paris à Normandia —, provocando cerca de 150 quilômetros de congestionamentos no início da manhã, segundo o ministro dos Transportes, Philippe Tabarot. Manifestantes também romperam barreiras policiais, circularam pela avenida Champs-Élysées e bloquearam vias no entorno do Arco do Triunfo e da Torre Eiffel.

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Os protestos foram convocados por sindicatos rurais em reação à possível assinatura do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, negociado há quase 25 anos. Os agricultores alegam que o tratado pode ampliar a entrada de alimentos considerados mais baratos no mercado europeu e reclamam ainda da condução do governo francês diante de uma doença que afeta o rebanho bovino, a dermatite nodular contagiosa. Eles defendem a vacinação dos animais, em vez do abate adotado pelas autoridades sanitárias.

“Estamos entre o ressentimento e o desespero. Há um sentimento de abandono, e o Mercosul se tornou o símbolo disso”, afirmou à agência Reuters Stephane Pelletier, integrante do sindicato Coordination Rurale.

Decisão iminente em Bruxelas

O protesto ocorre às vésperas de uma possível decisão sobre o acordo. Ontem, quarta-feira (07), a ministra da Agricultura do Chipre, Maria Panayiotou — país que assumiu em 2026 a presidência rotativa do Conselho da União Europeia — afirmou que o bloco pretende deliberar sobre o tratado “até o fim da semana”. A expectativa é de que o tema seja tratado em reunião de embaixadores dos países-membros nesta sexta-feira (09.01).

Fontes europeias indicam que um passo decisivo para a conclusão do acordo foi o apoio da Itália. A primeira-ministra Giorgia Meloni teria se mostrado satisfeita com a proposta da Comissão Europeia de antecipar 45 bilhões de euros em recursos para agricultores no próximo orçamento plurianual do bloco e com o compromisso de ampliar os gastos agrícolas no país entre 2028 e 2034.

Com o respaldo italiano, a Comissão Europeia estaria mais próxima de reunir os votos necessários para aprovar o acordo, mesmo sem o apoio da França — historicamente uma das principais opositoras ao tratado.

França isolada e pressão política

A posição francesa segue indefinida. Embora Paris tenha obtido concessões de última hora, o presidente Emmanuel Macron ainda não declarou se endossará o texto final. A incerteza ocorre em um ambiente político sensível: sem maioria no Parlamento, o governo francês enfrenta o risco de um voto de desconfiança em caso de novos desgastes.

A Comissão Europeia também propôs reduzir tarifas de importação sobre alguns fertilizantes e antecipar recursos agrícolas como forma de convencer países reticentes. Alemanha e Espanha apoiam o acordo abertamente.

Segundo a Comissão, as concessões negociadas limitam as cotas de importação a cerca de 1,5% do consumo europeu e mantêm intactas as exigências sanitárias, como a proibição do uso de hormônios e antibióticos na produção animal.

Editorial do Le Monde critica postura francesa

Em editorial publicado também nesta quarta-feira, o jornal francês Le Monde criticou duramente a estratégia adotada por Paris, classificando-a como politicamente ineficaz e diplomaticamente isolada. Para o diário, a tentativa francesa de bloquear o acordo, centrada quase exclusivamente na proteção do setor agrícola, acabou enfraquecida com a adesão da Itália ao tratado.

O jornal avalia que a França corre o risco de sofrer um “vexame diplomático”, ao ver o acordo avançar sem o protagonismo que tradicionalmente busca exercer na União Europeia. Internamente, o episódio pode aprofundar a crise agrícola e o desgaste de um governo fragilizado às vésperas do fim do mandato presidencial.

Na leitura do Le Monde, insistir no adiamento do acordo sem apresentar alternativas viáveis enfraquece a posição francesa tanto no plano externo quanto no interno. O editorial sustenta ainda que, em um cenário global marcado pelo endurecimento comercial dos Estados Unidos e pela pressão das exportações chinesas, a União Europeia precisa ampliar parcerias estratégicas para preservar sua autonomia econômica e diplomática.

Brasil acompanha com expectativa

No Brasil, o governo acompanha o desfecho com expectativa. A secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Tatiana Prazeres, afirmou que as negociações estão concluídas e que falta apenas a autorização das instâncias comunitárias para a assinatura do acordo.

Uma eventual aprovação nesta semana encerraria uma das negociações comerciais mais longas da história recente da União Europeia e redefiniria as relações comerciais entre o bloco europeu e os países do Mercosul.

(Com Pensar Agro)

Autor: Fernanda Toigo

Fernanda Toigo

Fernanda Toigo. Jornalista desde 2003, formada pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Cascavel. Iniciou sua carreira em veículos de comunicação impressos. Atuou na Assessoria de Comunicação para empresas e eventos, além de ter sido professora de Jornalismo Especializado na Fasul, em Toledo-PR. Em 2010 iniciou carreira no telejornalismo, e segue em atuação. Desde 2023 integra a equipe de Jornalismo do Portal Sou Agro. Possui forte relação com o Jornalismo especializado, com ênfase no setor do Agronegócio.

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